Práticas pedagógicas: o planejamento de aulas na educação infantil com base na BNCC
Josiane Godinho da Silva Rodrigues
Damaris de Jesus Silva
RESUMO
O planejamento pedagógico constitui uma etapa fundamental do trabalho docente, especialmente na Educação Infantil, período em que as crianças vivenciam importantes experiências de aprendizagem e desenvolvimento. Nesse contexto, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) representa um documento normativo essencial para orientar a organização das práticas pedagógicas, estabelecendo direitos de aprendizagem e desenvolvimento e objetivos adequados às diferentes faixas etárias. Este artigo tem como objetivo analisar a importância do planejamento de aulas fundamentado na BNCC, destacando sua contribuição para o desenvolvimento da autonomia, da criatividade, da coordenação motora e das diferentes potencialidades infantis, com ênfase nas experiências artísticas. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica e documental, de abordagem qualitativa, fundamentada na BNCC e nas contribuições teóricas de autores que discutem o planejamento pedagógico e o desenvolvimento infantil. A análise evidencia que o planejamento intencional, flexível e contextualizado favorece a organização de experiências significativas, respeitando os interesses, as necessidades e os diferentes ritmos de aprendizagem das crianças. Conclui-se que a atuação docente exige formação contínua, reflexão sobre a prática e compromisso com uma educação inclusiva, criativa e voltada ao desenvolvimento integral da criança.
Palavras-chave: Planejamento pedagógico. Educação Infantil. BNCC. Práticas pedagógicas. Desenvolvimento infantil.
1 INTRODUÇÃO
A Educação Infantil constitui uma etapa essencial da Educação Básica, pois representa um período marcado por descobertas, interações, experiências e aprendizagens que contribuem significativamente para o desenvolvimento integral da criança. Nessa fase, o trabalho pedagógico precisa ser organizado de maneira intencional, considerando as características do desenvolvimento infantil, os interesses das crianças e as diferentes possibilidades de construção do conhecimento.
O planejamento pedagógico assume, nesse contexto, uma função indispensável, uma vez que permite ao professor estabelecer objetivos, selecionar estratégias metodológicas, organizar os espaços educativos e propor experiências que favoreçam a aprendizagem. Planejar não significa apenas determinar atividades a serem realizadas, mas refletir sobre as finalidades educativas e sobre as condições necessárias para que todas as crianças possam participar ativamente do processo de aprendizagem.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), instituída como documento normativo para a Educação Básica, estabelece aprendizagens essenciais que devem ser asseguradas aos estudantes, respeitando as particularidades de cada etapa educacional. Na Educação Infantil, o documento apresenta seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento — conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se — e organiza as experiências pedagógicas em cinco campos de experiências (BRASIL, 2018).
Essas orientações contribuem para que o professor desenvolva práticas pedagógicas que valorizem a participação, a criatividade, a autonomia e as múltiplas formas de expressão infantil. Entre essas possibilidades, destaca-se a arte, que permite às crianças explorar cores, formas, sons, movimentos e materiais diversos, ampliando suas experiências sensoriais, motoras, cognitivas e sociais.
Vigotski (2009), ao abordar a imaginação e a criação na infância, contribui para a compreensão de que as experiências vivenciadas pelas crianças desempenham um papel importante no desenvolvimento da atividade criadora. Dessa maneira, a organização de propostas pedagógicas diversificadas pode ampliar as oportunidades de experimentação, expressão e construção de conhecimentos.
Além disso, o trabalho na Educação Infantil exige do professor preparação, sensibilidade e disposição para aprender continuamente. A prática docente envolve desafios relacionados à diversidade das crianças, à organização das experiências educativas e à necessidade de adequar as estratégias pedagógicas às situações vivenciadas no cotidiano escolar.
Diante dessas considerações, este artigo tem como objetivo analisar a importância do planejamento de aulas fundamentado na BNCC para a organização das práticas pedagógicas na Educação Infantil, destacando suas contribuições para o desenvolvimento integral das crianças, especialmente no que se refere à autonomia, à criatividade e às experiências artísticas.
A pesquisa caracteriza-se como bibliográfica e documental, com abordagem qualitativa, fundamentada na análise da BNCC e de referências teóricas relacionadas ao planejamento pedagógico e ao desenvolvimento infantil. Busca-se, assim, compreender como a organização intencional das práticas educativas pode contribuir para a qualidade do trabalho docente e para a construção de experiências significativas na Educação Infantil.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 O planejamento pedagógico na Educação Infantil
2.9 Planejamento pedagógico na Educação Infantil: intencionalidade e organização do ensino
O planejamento pedagógico constitui uma etapa fundamental do trabalho docente, pois permite organizar as experiências de aprendizagem, estabelecer objetivos e selecionar estratégias adequadas às necessidades e características das crianças. Na Educação Infantil, esse processo exige sensibilidade, observação e conhecimento sobre o desenvolvimento infantil, uma vez que as crianças aprendem por meio das interações, das brincadeiras, da exploração do ambiente e das diferentes formas de expressão.
Planejar não significa apenas elaborar uma sequência de atividades a serem executadas. Trata-se de um processo intencional, flexível e contínuo, que considera os interesses das crianças, seus conhecimentos prévios, suas experiências e suas possibilidades de aprendizagem. O professor precisa observar as respostas do grupo, registrar avanços e dificuldades e reorganizar suas propostas sempre que necessário.
Ostetto (2000) contribui para essa reflexão ao defender uma concepção de planejamento na Educação Infantil que coloque a criança no centro das decisões pedagógicas. Essa perspectiva desloca o foco da simples realização de tarefas para a qualidade das experiências oferecidas, reconhecendo a criança como sujeito ativo de sua aprendizagem.
O planejamento também favorece a atuação profissional do educador, pois possibilita antecipar recursos, organizar espaços, estabelecer objetivos e refletir sobre os resultados da prática. Entretanto, sua eficácia depende da capacidade de articular o planejamento prévio à realidade vivenciada em sala de aula. Uma proposta inicialmente elaborada pode precisar de adaptações diante das manifestações, necessidades e descobertas das crianças.
Nesse sentido, o planejamento pedagógico deve ser compreendido como instrumento de reflexão e aprimoramento profissional. Ao analisar sua prática, o professor identifica possibilidades de intervenção, reconhece aspectos que precisam ser aperfeiçoados e amplia progressivamente seus conhecimentos sobre os processos de ensino e aprendizagem.
2.10 A Base Nacional Comum Curricular e a organização das práticas pedagógicas
A Base Nacional Comum Curricular constitui um documento normativo que define as aprendizagens essenciais a serem desenvolvidas pelos estudantes ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica. Sua finalidade é orientar a elaboração dos currículos e das propostas pedagógicas, contribuindo para assegurar direitos de aprendizagem e desenvolvimento a todos os estudantes (BRASIL, 2018).
Na Educação Infantil, a BNCC organiza as aprendizagens a partir de seis direitos: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Esses direitos devem orientar as experiências educativas e assegurar oportunidades para que as crianças aprendam e se desenvolvam em diferentes dimensões.
O documento também estabelece cinco campos de experiências: O eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; e Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Essa organização permite integrar diferentes conhecimentos e experiências, evitando uma abordagem excessivamente fragmentada do currículo.
O planejamento docente precisa considerar esses direitos e campos de experiências, relacionando-os às características da faixa etária, aos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento e ao contexto sociocultural das crianças. Para isso, o professor deve selecionar propostas que favoreçam a participação, a investigação, a criatividade, a comunicação e a construção da autonomia.
É importante compreender que a BNCC não determina uma única maneira de ensinar nem exige que todas as instituições desenvolvam atividades idênticas. A organização do trabalho pedagógico deve respeitar as especificidades regionais, culturais e institucionais, bem como as necessidades de cada criança, mantendo como referência os direitos de aprendizagem e desenvolvimento.
Dessa forma, o planejamento fundamentado na BNCC representa uma oportunidade para qualificar a prática docente, tornando-a mais intencional, inclusiva e coerente com as finalidades da Educação Infantil.
2.11 A arte como experiência de aprendizagem e desenvolvimento infantil
A arte ocupa um lugar significativo na Educação Infantil porque possibilita às crianças explorar materiais, cores, sons, movimentos, formas e diferentes maneiras de expressar sentimentos, ideias e experiências. Por meio das manifestações artísticas, a criança amplia sua percepção do mundo, desenvolve a imaginação e constrói conhecimentos a partir da experimentação.
Na BNCC, essas experiências relacionam-se especialmente ao campo Traços, sons, cores e formas, que contempla a exploração de diferentes manifestações artísticas, culturais e científicas, bem como a criação e a expressão por meio de linguagens variadas (BRASIL, 2018).
As atividades artísticas podem envolver desenho, pintura, modelagem, música, dança, dramatização, colagem e exploração de materiais diversos. Quando planejadas com intencionalidade pedagógica, essas experiências favorecem a coordenação motora, a percepção sensorial, a atenção, a criatividade e a capacidade de comunicar pensamentos e emoções.
Vigotski (2009), ao discutir a imaginação e a criação na infância, destaca a relação entre a atividade criadora e as experiências vivenciadas pelas crianças. A criatividade não surge isoladamente, mas se desenvolve a partir das observações, das interações e das experiências acumuladas ao longo da vida. Por isso, é importante oferecer oportunidades para que as crianças explorem o ambiente, conheçam diferentes manifestações culturais e experimentem formas variadas de expressão.
O papel do professor consiste em criar condições para essas descobertas, disponibilizando materiais, organizando ambientes estimulantes e respeitando as produções infantis. A intervenção pedagógica deve ampliar as possibilidades de criação sem impor modelos rígidos que limitem a expressão individual.
Também é necessário evitar que a avaliação das produções artísticas seja baseada exclusivamente na aparência estética ou na reprodução de um modelo considerado correto. O mais importante é observar o envolvimento da criança, suas escolhas, suas tentativas, suas descobertas e os significados atribuídos ao que produz.
Assim, a arte deve ser compreendida como uma experiência de aprendizagem que contribui para o desenvolvimento integral, respeitando a singularidade das crianças e valorizando suas múltiplas formas de expressão.
2.12 Autonomia, criatividade e desenvolvimento integral da criança
O desenvolvimento da autonomia constitui um dos objetivos importantes da Educação Infantil. Nesse período, as crianças ampliam gradualmente sua capacidade de realizar pequenas tarefas, expressar preferências, fazer escolhas, comunicar necessidades e participar das atividades coletivas. Esse processo exige oportunidades de experimentação, incentivo à iniciativa e relações educativas fundamentadas no acolhimento e no respeito.
A autonomia não deve ser confundida com a ausência de orientação adulta. Ao contrário, ela se desenvolve quando a criança encontra um ambiente seguro, no qual pode explorar possibilidades, assumir responsabilidades compatíveis com sua idade e aprender com suas experiências. Cabe ao professor oferecer apoio quando necessário, sem antecipar todas as soluções ou impedir que a criança tente realizar determinadas tarefas.
As atividades artísticas, as brincadeiras e os projetos investigativos favorecem esse desenvolvimento porque permitem que as crianças escolham materiais, experimentem procedimentos, proponham ideias e compartilhem suas descobertas. Ao participar dessas situações, elas aprendem a tomar decisões, lidar com desafios e reconhecer suas capacidades.
O planejamento pedagógico precisa, portanto, contemplar experiências diversificadas que estimulem o desenvolvimento cognitivo, motor, afetivo, social e comunicativo. É importante considerar que essas dimensões não se desenvolvem de maneira isolada, mas se relacionam continuamente nas interações e nas vivências cotidianas.
Além disso, o professor deve respeitar os diferentes ritmos de aprendizagem, reconhecendo que cada criança possui características, interesses e necessidades particulares. Propostas inclusivas, materiais acessíveis e estratégias diversificadas contribuem para ampliar a participação de todas as crianças nas experiências educativas.
Desse modo, a promoção da autonomia e da criatividade depende tanto da qualidade das propostas pedagógicas quanto da maneira como o professor organiza as relações, os espaços e as oportunidades de aprendizagem.
2.13 A formação docente como processo contínuo de aprendizagem
A atuação na Educação Infantil exige preparação teórica, conhecimentos pedagógicos, capacidade de observação e sensibilidade para compreender as necessidades das crianças. O trabalho docente envolve desafios cotidianos que demandam reflexão, planejamento e disposição para aprender continuamente.
A formação inicial oferece fundamentos importantes para o exercício da profissão, mas a construção dos saberes docentes prossegue durante toda a trajetória profissional. A experiência em sala de aula, o diálogo com outros educadores, a participação em cursos e a análise das práticas contribuem para o aperfeiçoamento das estratégias de ensino.
O professor precisa compreender que ensinar crianças pequenas não consiste apenas em organizar atividades recreativas. Trata-se de um trabalho educativo intencional, que requer conhecimento sobre desenvolvimento infantil, currículo, inclusão, avaliação e organização dos ambientes de aprendizagem.
Nesse contexto, a reflexão sobre a própria prática assume importância fundamental. Ao observar os resultados de suas propostas, o educador pode identificar o que favoreceu a participação das crianças, quais intervenções precisam ser modificadas e quais conhecimentos necessita aprofundar.
A disposição para reconhecer dificuldades e buscar novas aprendizagens contribui para o desenvolvimento da identidade profissional. Os desafios presentes na Educação Infantil não devem ser vistos apenas como obstáculos, mas também como oportunidades de reflexão, crescimento e aperfeiçoamento.
Portanto, a formação docente precisa ser compreendida como um processo permanente, sustentado pelo estudo, pela experiência, pela colaboração e pelo compromisso com a qualidade da educação oferecida às crianças.
3 CONCLUSÃO
O desenvolvimento deste estudo permitiu compreender que o planejamento pedagógico, quando fundamentado na BNCC e articulado às características da Educação Infantil, constitui um instrumento essencial para organizar experiências educativas significativas. Sua importância está relacionada à definição de objetivos, à escolha de estratégias adequadas e à criação de condições favoráveis ao desenvolvimento integral das crianças.
A BNCC oferece referências para a organização curricular, destacando os direitos de aprendizagem e desenvolvimento e os campos de experiências que orientam o trabalho pedagógico nessa etapa. Entretanto, sua efetivação depende da capacidade do professor de interpretar essas orientações e adaptá-las às necessidades, aos interesses e às características socioculturais das crianças.
Verificou-se também que a arte desempenha uma função relevante no processo educativo, pois favorece a criatividade, a imaginação, a expressão de sentimentos, a coordenação motora e a construção de conhecimentos. Quando integrada ao planejamento de maneira intencional, a experiência artística amplia as possibilidades de participação e contribui para a valorização das singularidades infantis.
Outro aspecto importante refere-se ao desenvolvimento da autonomia. Para que as crianças ampliem sua capacidade de realizar escolhas, explorar materiais e participar das atividades coletivas, é necessário que o professor ofereça ambientes acolhedores, oportunidades diversificadas e apoio compatível com cada etapa do desenvolvimento.
Conclui-se, ainda, que a qualidade do trabalho pedagógico está diretamente relacionada à formação e ao aperfeiçoamento contínuo dos educadores. A reflexão sobre a prática, o estudo permanente e a disposição para enfrentar desafios são elementos fundamentais para a construção de uma atuação profissional consciente e responsável.
Dessa forma, o planejamento de aulas na Educação Infantil deve ser compreendido como um processo dinâmico, reflexivo e intencional, que articula currículo, experiências infantis e objetivos educacionais. Ao assumir esse compromisso, o professor contribui para uma educação mais inclusiva, criativa e significativa, favorecendo o desenvolvimento das potencialidades de cada criança e fortalecendo sua própria trajetória profissional.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 13 out. 2026.
OSTETTO, Luciana Esmeralda. Planejamento na educação infantil: mais que a atividade, a criança em foco. In: OSTETTO, Luciana Esmeralda (org.). Encontros e encantamentos na educação infantil: partilhando experiências de estágio. Campinas, SP: Papirus, 2000. p. 175-200.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Imaginação e criação na infância. Apresentação e comentários de Ana Luiza Smolka. Tradução de Zoia Prestes. São Paulo: Ática, 2009.


