Currículo e Educação Infantil em uma Escola Municipal de Sinop-MT: Uma Análise da Implementação dos Campos de Experiência da BNCC
Roberta Anisio Moraes dos Santos
RESUMO
Este artigo tem como objetivo analisar a organização curricular da Educação Infantil na rede municipal de Sinop-MT, com foco na implementação dos cinco Campos de Experiência estabelecidos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A pesquisa, de natureza documental e exploratória, examina como uma escola municipal da referida cidade organiza suas práticas educacionais para crianças de 4 anos a 5 anos e 11 meses, articulando as orientações nacionais da BNCC com as diretrizes da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/1996) e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI). Os resultados evidenciam que o currículo local adota integralmente os cinco Campos de Experiência — "O Eu, o Outro e o Nós" (EO), "Corpo, Gestos e Movimentos" (CG), "Traços, Sons, Cores e Formas" (TS), "Escuta, Fala, Pensamento e Imaginação" (EF) e "Espaços, Tempos, Quantidades, Relações e Transformações" (ET) —, com objetivos de aprendizagem e desenvolvimento claramente definidos. Constata-se, contudo, a existência de tensões entre a amplitude conceitual dos campos e sua operacionalização no cotidiano escolar, especialmente no que se refere à avaliação de dimensões atitudinais e à formação continuada dos professores. Conclui-se que a apropriação crítica das orientações curriculares é condição necessária para que a proposta se traduza em práticas pedagógicas significativas e centradas na criança.
Palavras-chave: BNCC. Educação Infantil. Campos de Experiência. Sinop-MT. currículo.
1. Introdução
A Educação Infantil brasileira passou por transformações significativas nas últimas décadas, consolidando-se como primeira etapa da Educação Básica e afirmando a indissociabilidade entre cuidar e educar. A publicação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em 2017 representou um marco nesse percurso, ao estabelecer seis direitos de aprendizagem — conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se — e ao organizar o currículo em cinco Campos de Experiência.
No entanto, a implementação dessa proposta nos sistemas municipais de ensino enfrenta desafios variados. Cada município, dotado de autonomia relativa, precisa traduzir as orientações nacionais em práticas educacionais contextualizadas. Este artigo investiga essa questão a partir do caso de uma escola municipal de Sinop, no estado de Mato Grosso, buscando compreender como os Campos de Experiência da BNCC são apropriados e organizados no cotidiano da pré-escola.
A questão que orienta a investigação é a seguinte: como a rede municipal de Sinop-MT estrutura o currículo da Educação Infantil para crianças de 4 a 5 anos e 11 meses, e de que forma os Campos de Experiência se articulam com os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento propostos?
2. Referencial teórico e normativo
2.1 A Educação Infantil na legislação brasileira
A LDB 9394/1996, em seu artigo 29, define a Educação Infantil como a primeira etapa da Educação Básica, tendo como finalidade "o desenvolvimento integral da criança de até 5 anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade". O artigo 31 estabelece que a avaliação nessa etapa deve ocorrer "mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento das crianças, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao Ensino Fundamental".
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), por sua vez, definem o currículo como "um conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico". As DCNEI estabelecem ainda que as práticas pedagógicas devem ter como eixos norteadores as interações e a brincadeira.
2.2 Os Campos de Experiência na BNCC
A BNCC organiza o currículo da Educação Infantil em cinco Campos de Experiência, que "constituem um arranjo curricular que acolhe as situações e as experiências concretas da vida cotidiana das crianças e seus saberes, entrelaçando-os aos conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural".
Os cinco campos são:
· O Eu, o Outro e o Nós (EO) : enfatiza a construção da identidade e da subjetividade, as relações interpessoais e o respeito à diversidade.
· Corpo, Gestos e Movimentos (CG) : valoriza a expressão corporal, o movimento, a autonomia e o autocuidado.
· Traços, Sons, Cores e Formas (TS) : aborda a experiência estética, a produção artística e o contato com diferentes linguagens expressivas.
· Escuta, Fala, Pensamento e Imaginação (EF) : focaliza a linguagem oral e escrita, a narrativa, a imaginação e a participação na cultura letrada.
· Espaços, Tempos, Quantidades, Relações e Transformações (ET) : envolve a exploração do mundo físico e social, noções matemáticas e a compreensão de fenômenos naturais.
Para cada campo, a BNCC estabelece objetivos de aprendizagem e desenvolvimento organizados por faixas etárias, com codificação alfanumérica que identifica a etapa, o grupo etário, o campo e a sequência do objetivo.
3. Metodologia
Trata-se de pesquisa de natureza qualitativa, do tipo documental e exploratória. A coleta de dados foi realizada por meio da análise do documento curricular de uma escola municipal de Sinop-MT, referente à Educação Infantil pré-escolar (4 a 5 anos e 11 meses). O material foi examinado à luz das orientações da BNCC, das DCNEI e da LDB, buscando identificar a estrutura do currículo local, os objetivos de aprendizagem definidos para cada Campo de Experiência e as estratégias pedagógicas sugeridas.
4. Resultados e discussão
4.1 A organização curricular da escola investigada
Segundo as informações obtidas, todas as escolas da rede municipal de Sinop seguem a BNCC como referência curricular central. O currículo da Educação Infantil é compreendido como "práticas educacionais" planejadas a partir do conhecimento da criança e de seu meio comunitário, bem como da construção da identidade das crianças na fase pré-escolar.
Essa concepção está alinhada às DCNEI, que afirmam que o currículo deve ser construído a partir das experiências e saberes das crianças, articulando-os ao patrimônio cultural. A escola investigada organiza os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento seguindo a codificação da BNCC, utilizando as siglas correspondentes a cada Campo de Experiência.
4.2 Os Campos de Experiência na prática escolar
A seguir, apresenta-se a descrição de cada Campo de Experiência conforme organizado pela escola, acompanhada de análise crítica.
4.2.1 O Eu, o Outro e o Nós (EO)
Os objetivos definidos para este campo incluem: demonstrar empatia pelos outros, reconhecendo que as pessoas têm diferentes sentimentos, maneiras de pensar e agir; proceder de forma independente e com confiança, reconhecendo suas conquistas, capacidades e limitações; ampliar as relações interpessoais, adotando atitudes de participação e cooperação; comunicar suas ideias e sentimentos a pessoas e grupos diversos; valorizar as características do seu corpo, respeitando as diferenças dos outros; manifestar interesse e respeito por diferentes culturas e modos de vida; e usar estratégias pautadas no respeito mútuo ao lidar com conflitos nas interações.
Essa formulação está em consonância com a BNCC, que enfatiza a construção da identidade e da alteridade. A menção explícita ao respeito à diversidade cultural e ao manejo de conflitos indica uma preocupação com a formação ética e cidadã desde a primeira infância.
4.2.2 Corpo, Gestos e Movimentos (CG)
Os objetivos deste campo incluem: criar com o corpo formas diversificadas de expressão de sentimentos, sensações e emoções; demonstrar controle e adequação no uso do corpo; criar movimentos; adotar hábitos de autocuidado relacionados à higiene, alimentação, conforto e aparência; e coordenar habilidades manuais para atender adequadamente a interesses e necessidades em situações diversas.
As atividades sugeridas envolvem brincadeiras, danças, teatro, músicas, jogos, escuta e reconto de histórias. Essa variedade de linguagens expressivas está alinhada à BNCC, que destaca a importância do corpo como instrumento de exploração do mundo e de expressão subjetiva.
4.2.3 Traços, Sons, Cores e Formas (TS)
Os objetivos incluem: utilizar sons produzidos por materiais, objetos e instrumentos musicais; expressar-se livremente por meio de desenhos, pinturas, colagens, dobraduras e esculturas, criando produções bidimensionais e tridimensionais; e reconhecer qualidades do som (intensidade, duração, altura e timbre).
Observa-se aqui uma articulação entre a dimensão sonora e a dimensão visual, permitindo que a criança experimente diferentes linguagens artísticas. A BNCC ressalta que esse campo "possibilita a criação, a imaginação e a expressão por meio de diferentes linguagens".
4.2.4 Escuta, Fala, Pensamento e Imaginação (EF)
Os objetivos envolvem: expressar ideias, desejos e sentimentos sobre sua vivência por meio da linguagem oral e escrita; inventar brincadeiras, poemas e canções, criando rimas, aliterações e ritmos; folhear livros, procurando temas e ilustrações para identificar palavras conhecidas; recontar histórias para produção escrita, tendo o professor como auxiliar; produzir seus próprios textos, reconhecendo a escrita espontânea; levantar hipóteses sobre gêneros textuais; e registrar palavras e textos por meio da escrita espontânea.
Este campo é particularmente relevante para a transição para o Ensino Fundamental, pois trabalha a linguagem oral e escrita de forma contextualizada e significativa. A ênfase na escrita espontânea e no reconhecimento de gêneros textuais está alinhada às pesquisas sobre alfabetização e letramento.
4.2.5 Espaços, Tempos, Quantidades, Relações e Transformações (ET)
Os objetivos incluem: estabelecer relações de comparação entre objetos, observando suas propriedades; descrever mudanças em diferentes materiais; experimentar fenômenos naturais e artificiais; identificar e selecionar fontes de informação para responder questões sobre a natureza e sua conservação; registrar manipulações e medidas usando múltiplas linguagens; analisar objetos e figuras de acordo com suas semelhanças e diferenças; relatar fatos importantes sobre seu nascimento, desenvolvimento, história familiar e comunitária; classificar números e suas respectivas quantidades; identificar o antes, o depois e o entre em uma sequência; e construir gráficos.
Esse campo integra noções matemáticas, científicas e históricas, evidenciando a interdisciplinaridade proposta pela BNCC para a Educação Infantil.
4.3 Potencialidades e tensões
A análise revela que a escola investigada adota integralmente os cinco Campos de Experiência da BNCC, com objetivos de aprendizagem claramente definidos e articulados às orientações nacionais. Essa adesão indica uma apropriação consistente da proposta curricular.
No entanto, algumas tensões merecem destaque. A primeira diz respeito à amplitude conceitual de alguns objetivos, que podem gerar interpretações diversas no cotidiano escolar. Por exemplo, o objetivo de "coordenar habilidades manuais para atender adequadamente a interesses e necessidades em situações diversas" carece de maior especificação sobre quais habilidades e situações são priorizadas.
A segunda tensão refere-se à avaliação. A LDB determina que a avaliação na Educação Infantil ocorra "mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento das crianças, sem o objetivo de promoção". Contudo, objetivos que envolvem atitudes, empatia e respeito à diversidade apresentam desafios significativos para serem avaliados de forma formativa e não classificatória.
A terceira tensão relaciona-se à formação continuada dos professores. A implementação efetiva dos Campos de Experiência exige que os docentes compreendam a lógica da proposta e saibam traduzi-la em práticas pedagógicas centradas na criança. Pesquisas indicam que muitos professores ainda organizam suas aulas de forma tradicional, com foco no conteúdo e não nas experiências das crianças.
5. Considerações finais
A investigação realizada em uma escola municipal de Sinop-MT revelou que a rede adota os cinco Campos de Experiência da BNCC como eixo organizador do currículo da Educação Infantil, com objetivos de aprendizagem e desenvolvimento definidos para cada campo. Essa organização está alinhada às orientações da LDB e das DCNEI, que preconizam a indissociabilidade entre cuidar e educar e a centralidade da criança no processo educativo.
As potencialidades identificadas incluem a integralidade da proposta, a articulação entre diferentes linguagens e a preocupação com a formação ética e cidadã. As tensões, por sua vez, envolvem a amplitude conceitual de alguns objetivos, os desafios da avaliação formativa e a necessidade de formação continuada dos professores.
Conclui-se que a apropriação crítica das orientações curriculares é condição necessária para que a proposta se traduza em práticas pedagógicas significativas e centradas na criança. O êxito da implementação depende, em larga medida, do investimento na formação docente e da produção de materiais que auxiliem os professores na tradução dos Campos de Experiência em experiências concretas de aprendizagem.
Referências
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Presidência da República, 1996.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília: MEC, 2017. Disponível em
: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 23 set. 2026.
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BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil. Brasília: MEC, SEB, 2006.
FERREIRA, Sandra da Conceição Donato. A educação infantil como um direito social da criança: uma análise sobre a prática docente a partir da implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil no município de Sinop-MT. 2019. 154 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Mato Grosso, Rondonópolis, 2019.
COSTA, Larissa Carvalho; PEREIRA, Maria Gabriela Ferreira; SANTOS, Geniana dos. Normatividade curricular na Educação Infantil: a BNCC e o Documento de Referência de Mato Grosso. Revista Espaço do Currículo, v. 18, n. 3, p. 1-17, 2025. DOI: 10.15687/rec.v18i3.71612.


