A influência dos fatores emocionais no processo de aprendizagem de alunos em situação de vulnerabilidade social: desafios e perspectivas para a educação básica
Adelina Alves Neves Bezerra
Cássia Simone Fonseca Ferreira
Jocasta Maria Scandiussi
Rosane Paulino de Azevedo de David
Rosiane do Rocio Kirschke Corrêa
RESUMO
A aprendizagem escolar constitui um processo complexo que envolve dimensões cognitivas, sociais, culturais e emocionais. Nas últimas décadas, pesquisas nas áreas da Educação, Psicologia e Neurociências têm evidenciado que os fatores emocionais exercem influência significativa sobre o desenvolvimento das funções cognitivas responsáveis pela atenção, memória, linguagem, autorregulação e resolução de problemas. Quando associados a contextos de vulnerabilidade social, caracterizados por pobreza, violência, insegurança alimentar, negligência, instabilidade familiar e exclusão social, esses fatores tendem a intensificar dificuldades de aprendizagem e comprometer o desenvolvimento integral dos estudantes. Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar a influência dos fatores emocionais no processo de aprendizagem de alunos em situação de vulnerabilidade social, discutindo o papel da escola, da família e do professor na construção de ambientes educativos emocionalmente seguros e promotores do desenvolvimento humano. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, fundamentada na análise crítica da literatura científica nacional e internacional, bem como de documentos oficiais relacionados às políticas públicas educacionais e de proteção à infância. A discussão articula contribuições da Psicologia Histórico-Cultural, da Psicologia do Desenvolvimento, das Neurociências Cognitivas e dos estudos sobre competências socioemocionais, evidenciando que emoções como medo, ansiedade, insegurança, estresse tóxico e baixa autoestima podem comprometer significativamente o desempenho acadêmico quando não são adequadamente reconhecidas e acolhidas pela escola. Os resultados indicam que práticas pedagógicas fundamentadas no acolhimento, na mediação das relações interpessoais, na educação socioemocional e na formação docente favorecem o fortalecimento dos vínculos escolares, ampliam o engajamento dos estudantes e contribuem para a redução das desigualdades educacionais. Conclui-se que a aprendizagem não pode ser compreendida apenas como um fenômeno cognitivo, mas como um processo integrado às dimensões emocionais e sociais do desenvolvimento humano, exigindo políticas educacionais comprometidas com a promoção da equidade, da inclusão e da justiça social.
PALAVRAS-CHAVE: Aprendizagem. Emoções. Vulnerabilidade Social. Educação Socioemocional. Desenvolvimento Humano. Formação Docente.
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, a compreensão da aprendizagem escolar passou por importantes transformações teóricas, deslocando-se de modelos centrados exclusivamente nos aspectos cognitivos para abordagens que reconhecem a complexa interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais, culturais e emocionais. Essa mudança paradigmática permitiu compreender que aprender não consiste apenas na aquisição de conhecimentos formais, mas em um processo dinâmico de construção de significados, mediado pelas experiências vividas, pelas relações sociais e pelas condições objetivas em que os indivíduos se desenvolvem. Nesse contexto, as emoções deixaram de ser compreendidas como elementos secundários do processo educativo e passaram a ocupar posição central nas discussões sobre desenvolvimento humano, aprendizagem e sucesso escolar.
Estudos desenvolvidos nas áreas da Psicologia da Educação, Neurociências Cognitivas e Psicologia Histórico-Cultural demonstram que processos emocionais influenciam diretamente funções executivas essenciais para a aprendizagem, como atenção, memória de trabalho, planejamento, controle inibitório, tomada de decisão e autorregulação. Emoções positivas, associadas ao sentimento de pertencimento, segurança e valorização, tendem a favorecer a curiosidade intelectual, o engajamento e a persistência diante das dificuldades. Em contrapartida, experiências marcadas por medo, ansiedade, insegurança, violência, negligência e estresse crônico comprometem o funcionamento dessas funções cognitivas, repercutindo negativamente sobre o desempenho acadêmico e o desenvolvimento socioemocional.
Essa realidade torna-se ainda mais evidente quando se analisam estudantes inseridos em contextos de vulnerabilidade social. A vulnerabilidade ultrapassa a dimensão econômica e compreende um conjunto de fatores que limitam o acesso aos direitos fundamentais, incluindo desigualdade social, insegurança alimentar, violência comunitária, fragilidade dos vínculos familiares, discriminação, exclusão social e dificuldades de acesso aos serviços públicos. Tais condições produzem impactos significativos sobre o desenvolvimento infantil e juvenil, influenciando não apenas os indicadores educacionais, mas também a saúde mental, a autoestima, as relações interpessoais e as expectativas de futuro dos estudantes.
No cenário educacional brasileiro, as desigualdades sociais continuam constituindo um dos principais obstáculos à garantia do direito à aprendizagem. Embora importantes avanços tenham sido alcançados no acesso à educação básica, persistem desafios relacionados à permanência, ao desempenho escolar e à redução das desigualdades educacionais. Nesse contexto, torna-se insuficiente compreender o fracasso escolar apenas sob a perspectiva das dificuldades individuais dos estudantes, sendo necessário analisar as condições sociais, emocionais e institucionais que influenciam seus processos de aprendizagem.
Sob a perspectiva histórico-cultural, desenvolvida por Lev Vygotsky, o desenvolvimento humano ocorre por meio das interações sociais mediadas pela linguagem, pela cultura e pelas relações estabelecidas com outros sujeitos. Essa abordagem permite compreender que os processos emocionais não se encontram dissociados do desenvolvimento cognitivo; ao contrário, constituem dimensões indissociáveis da formação humana. Complementarmente, Henri Wallon destaca que afetividade e cognição integram um mesmo processo de desenvolvimento, no qual as experiências emocionais desempenham papel fundamental na constituição da personalidade, da inteligência e da aprendizagem.
As contribuições das Neurociências reforçam esse entendimento ao demonstrar que situações prolongadas de estresse, medo ou ansiedade podem alterar o funcionamento de estruturas cerebrais relacionadas à memória, à atenção e ao controle emocional, comprometendo o desempenho escolar. Em contrapartida, ambientes educativos caracterizados pelo acolhimento, pela segurança emocional, pelo fortalecimento dos vínculos afetivos e pela valorização das experiências dos estudantes favorecem a plasticidade cerebral, ampliando as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento.
Nesse cenário, o professor assume papel estratégico não apenas como mediador do conhecimento, mas também como agente promotor de relações educativas humanizadas, capazes de reconhecer as necessidades emocionais dos estudantes e construir práticas pedagógicas sensíveis às diferentes realidades sociais. Isso não significa atribuir ao docente a responsabilidade exclusiva pelo enfrentamento das desigualdades sociais, mas reconhecer sua importância na criação de ambientes escolares pautados na escuta, no diálogo, na cooperação e no fortalecimento da autoestima dos educandos.
Além da atuação docente, a escola constitui um espaço privilegiado para o desenvolvimento de competências socioemocionais, entendidas como capacidades relacionadas ao autoconhecimento, à empatia, à autorregulação, à tomada de decisões responsáveis e ao estabelecimento de relações interpessoais saudáveis. Tais competências têm sido reconhecidas como componentes essenciais para a aprendizagem significativa e para a formação integral dos estudantes, especialmente daqueles expostos a contextos de vulnerabilidade social.
Diante dessas considerações, este artigo tem como objetivo analisar a influência dos fatores emocionais no processo de aprendizagem de alunos em situação de vulnerabilidade social, discutindo como as dimensões afetivas interferem no desenvolvimento cognitivo e quais estratégias pedagógicas podem contribuir para a promoção de uma educação mais equitativa, humanizada e comprometida com a redução das desigualdades educacionais.
Metodologicamente, o estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, desenvolvida a partir da análise crítica de livros, artigos científicos, documentos oficiais e legislações nacionais e internacionais relacionados à educação, à psicologia do desenvolvimento, à educação socioemocional e às políticas públicas voltadas à proteção da infância e da adolescência. A revisão da literatura buscou integrar diferentes referenciais teóricos, possibilitando uma compreensão interdisciplinar das relações entre emoções, vulnerabilidade social e aprendizagem.
Ao discutir a influência dos fatores emocionais sobre os processos educativos, este estudo pretende contribuir para o fortalecimento de práticas pedagógicas fundamentadas na promoção do desenvolvimento integral, na valorização da diversidade de experiências dos estudantes e na construção de políticas educacionais capazes de enfrentar as desigualdades sociais que ainda limitam o pleno exercício do direito à educação. Nesse sentido, compreender a aprendizagem como um fenômeno simultaneamente cognitivo, emocional e social constitui condição indispensável para a consolidação de uma escola democrática, inclusiva e comprometida com a formação humana em sua integralidade.
2 EMOÇÕES E APRENDIZAGEM: FUNDAMENTOS TEÓRICOS E CONCEITUAIS
A compreensão da aprendizagem humana passou por profundas transformações ao longo do desenvolvimento das ciências da educação, da psicologia e das neurociências. Se, durante grande parte do século XX, predominou uma perspectiva que privilegiava os aspectos cognitivos do desenvolvimento, atualmente reconhece-se que aprender constitui um processo multidimensional, no qual fatores cognitivos, emocionais, sociais e culturais se encontram profundamente inter-relacionados. Nessa perspectiva, as emoções deixaram de ser compreendidas como elementos secundários do processo educativo para serem reconhecidas como componentes estruturantes da construção do conhecimento.
Historicamente, as primeiras teorias da aprendizagem enfatizavam mecanismos associados à inteligência, à memória e ao raciocínio lógico, atribuindo pouca relevância aos aspectos afetivos. Entretanto, pesquisas desenvolvidas nas últimas décadas demonstram que emoções e cognição constituem processos inseparáveis do funcionamento humano. As emoções influenciam diretamente a atenção, a memória, a motivação, a tomada de decisões, a criatividade e a capacidade de resolver problemas, afetando significativamente o desempenho escolar.
Para Damásio (2012), emoção e razão não representam sistemas independentes, mas dimensões integradas do funcionamento cerebral. Segundo o autor, os processos emocionais orientam a tomada de decisões e influenciam continuamente os mecanismos cognitivos envolvidos na aprendizagem. Assim, experiências emocionais positivas favorecem a construção do conhecimento, enquanto estados persistentes de medo, ansiedade, insegurança e estresse tendem a comprometer o desempenho intelectual.
Sob a mesma perspectiva, Goleman (2012) argumenta que o sucesso escolar e profissional depende não apenas das capacidades intelectuais tradicionalmente avaliadas pelos testes de inteligência, mas também do desenvolvimento das competências emocionais, tais como autoconsciência, autorregulação, empatia, motivação e habilidades sociais. Essas competências possibilitam maior controle sobre os processos emocionais, favorecendo relações interpessoais saudáveis e ampliando a capacidade de enfrentar situações de adversidade.
No contexto educacional, as emoções influenciam diretamente a disposição para aprender. Estudantes que percebem a escola como ambiente acolhedor, seguro e estimulante tendem a apresentar maior engajamento nas atividades escolares, melhor desempenho acadêmico e relações interpessoais mais positivas. Em contrapartida, experiências marcadas por rejeição, discriminação, violência ou fracasso escolar favorecem sentimentos de desmotivação, insegurança e baixa autoestima, comprometendo o desenvolvimento das potencialidades individuais.
Essa compreensão rompe com concepções reducionistas que atribuem exclusivamente ao estudante a responsabilidade pelas dificuldades de aprendizagem. Em vez disso, evidencia que a aprendizagem resulta da interação permanente entre características individuais e condições sociais, culturais e institucionais nas quais o sujeito está inserido. Assim, compreender os processos emocionais torna-se condição indispensável para a construção de práticas pedagógicas comprometidas com o desenvolvimento integral dos estudantes.
2.2 A perspectiva histórico-cultural e a integração entre afetividade e cognição
Entre os referenciais teóricos que fundamentam a relação entre emoções e aprendizagem, destacam-se as contribuições da Psicologia Histórico-Cultural, especialmente os estudos desenvolvidos por Lev Vygotsky. Em oposição às teorias que compreendem o desenvolvimento como resultado exclusivo da maturação biológica, Vygotsky defende que as funções psicológicas superiores são construídas nas interações sociais mediadas pela linguagem, pela cultura e pelas relações estabelecidas entre os sujeitos.
Nessa perspectiva, pensamento, linguagem, emoção e aprendizagem constituem processos indissociáveis do desenvolvimento humano. As experiências afetivas influenciam diretamente a forma como o indivíduo interpreta a realidade, atribui significado às experiências e constrói novos conhecimentos. O desenvolvimento cognitivo, portanto, não ocorre isoladamente, mas em constante interação com os aspectos emocionais e sociais.
Um dos conceitos centrais da teoria histórico-cultural refere-se à mediação, entendida como o processo pelo qual o conhecimento é construído por meio da interação entre o estudante, o professor, os colegas e os diferentes instrumentos culturais disponíveis. Essa compreensão amplia significativamente o papel da escola, que deixa de ser apenas espaço de transmissão de conteúdos para tornar-se ambiente de desenvolvimento humano e construção das relações sociais.
Outro conceito fundamental é a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), definida como a distância entre aquilo que o estudante consegue realizar de forma independente e aquilo que pode realizar com auxílio de um mediador mais experiente. Sob essa perspectiva, o apoio emocional oferecido pelo professor constitui elemento essencial da mediação pedagógica, favorecendo sentimentos de segurança, pertencimento e confiança necessários ao enfrentamento dos desafios intelectuais.
Complementando essa abordagem, Henri Wallon atribui papel central à afetividade no desenvolvimento infantil. Para o autor, emoção, cognição e movimento constituem dimensões inseparáveis do desenvolvimento da personalidade. Wallon afirma que as emoções representam as primeiras formas de comunicação da criança com o meio social, desempenhando funções essenciais na organização do pensamento, da linguagem e das relações interpessoais.
Ao integrar cognição e afetividade, Wallon rompe com a dicotomia historicamente estabelecida entre razão e emoção. Segundo sua teoria, o desenvolvimento intelectual somente pode ser compreendido considerando-se os processos emocionais vivenciados pelo indivíduo. Essa perspectiva possui importantes implicações para a educação, uma vez que evidencia que práticas pedagógicas baseadas exclusivamente na transmissão de conteúdos tendem a negligenciar dimensões fundamentais da aprendizagem.
Freire também contribui significativamente para essa discussão ao afirmar que ensinar exige diálogo, respeito, acolhimento e reconhecimento da humanidade do educando. Para o autor, o processo educativo deve fundamentar-se em relações de confiança e reciprocidade, capazes de promover autonomia, pensamento crítico e emancipação social. Nessa perspectiva, a afetividade não representa um elemento acessório da prática docente, mas componente essencial da construção do conhecimento.
Assim, as contribuições de Vygotsky, Wallon e Freire convergem ao reconhecer que aprendizagem e desenvolvimento humano somente podem ser compreendidos mediante a integração entre aspectos cognitivos, emocionais, sociais e culturais, reforçando a necessidade de práticas pedagógicas comprometidas com a formação integral dos estudantes.
3 VULNERABILIDADE SOCIAL E SEUS IMPACTOS NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL E NA APRENDIZAGEM
A vulnerabilidade social constitui um fenômeno multidimensional que ultrapassa a insuficiência de renda e envolve um conjunto de condições estruturais capazes de comprometer o desenvolvimento humano. Entre essas condições destacam-se a pobreza, a insegurança alimentar, a violência doméstica e comunitária, a precariedade habitacional, a instabilidade familiar, a exclusão social, a discriminação, o trabalho infantil e as dificuldades de acesso aos serviços públicos de educação, saúde, cultura e assistência social. Esses fatores atuam de forma interdependente, produzindo impactos significativos sobre o desenvolvimento cognitivo, emocional e social de crianças e adolescentes.
No campo da educação, compreender a vulnerabilidade social exige abandonar interpretações que atribuem exclusivamente ao estudante a responsabilidade pelo fracasso escolar. Conforme discutem Bronfenbrenner (1996) e Bourdieu (1998), o desenvolvimento humano resulta da interação entre características individuais e os diferentes contextos sociais nos quais o sujeito está inserido. Dessa forma, as dificuldades de aprendizagem frequentemente refletem desigualdades estruturais que limitam as oportunidades educacionais, culturais e afetivas disponíveis às crianças desde os primeiros anos de vida.
Segundo Bronfenbrenner (1996), o desenvolvimento ocorre em sistemas ecológicos interdependentes — família, escola, comunidade e sociedade — que influenciam continuamente a formação do indivíduo. Quando esses sistemas apresentam fragilidades, aumentam os riscos de comprometimento do desenvolvimento infantil. Em contextos de elevada vulnerabilidade, a exposição prolongada à violência, ao abandono, à negligência e à insegurança pode produzir efeitos persistentes sobre a saúde mental, a autoestima e a capacidade de estabelecer vínculos afetivos seguros.
Pesquisas nacionais têm demonstrado que estudantes em situação de vulnerabilidade apresentam maior probabilidade de evasão escolar, distorção idade-série, dificuldades de aprendizagem e problemas relacionados à saúde mental. Entretanto, esses resultados não decorrem exclusivamente das condições socioeconômicas, mas da combinação entre fatores emocionais, familiares, institucionais e pedagógicos que limitam as oportunidades de desenvolvimento.
Nesse contexto, torna-se relevante considerar o conceito de estresse tóxico, amplamente discutido na literatura contemporânea sobre desenvolvimento infantil. Diferentemente do estresse transitório, o estresse tóxico caracteriza-se pela exposição prolongada a situações adversas sem a presença de relações afetivas protetoras capazes de oferecer segurança emocional. Essa condição pode alterar o desenvolvimento cerebral, comprometendo funções relacionadas à memória, atenção, controle emocional e aprendizagem.
Do ponto de vista educacional, essas evidências reforçam que a escola não pode ignorar as condições sociais vivenciadas pelos estudantes. Embora não seja responsável pela eliminação das desigualdades estruturais, possui papel fundamental na construção de ambientes protetivos capazes de minimizar os impactos das experiências adversas sobre o desenvolvimento e a aprendizagem.
Além disso, compreender a vulnerabilidade como fenômeno multidimensional implica reconhecer as potencialidades dos estudantes, evitando abordagens estigmatizantes que os definam exclusivamente por suas dificuldades. A perspectiva contemporânea da educação defende que políticas pedagógicas orientadas pela equidade devem promover oportunidades diferenciadas, respeitando as necessidades específicas de cada contexto sem reproduzir processos de exclusão.
4 COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA
Nos últimos anos, o desenvolvimento das competências socioemocionais passou a ocupar posição de destaque nas discussões sobre qualidade da educação. Essas competências compreendem um conjunto de habilidades relacionadas ao autoconhecimento, autorregulação, empatia, responsabilidade, cooperação, resolução de conflitos e tomada de decisões éticas, consideradas fundamentais para o desenvolvimento integral dos estudantes.
A literatura especializada demonstra que tais competências influenciam diretamente o desempenho acadêmico, uma vez que favorecem maior persistência diante das dificuldades, melhor capacidade de concentração, fortalecimento das relações interpessoais e ampliação do sentimento de pertencimento ao ambiente escolar.
Entretanto, a educação socioemocional não deve ser reduzida a programas isolados ou ao ensino de técnicas de controle emocional. Trata-se de uma perspectiva pedagógica integrada ao currículo, às práticas docentes e à cultura institucional da escola. Desenvolver competências socioemocionais implica criar ambientes educativos nos quais o diálogo, a cooperação, a participação e o respeito à diversidade sejam vivenciados cotidianamente.
Entre as estratégias pedagógicas que favorecem esse processo destacam-se as metodologias ativas, a aprendizagem colaborativa, os círculos restaurativos, a mediação de conflitos, os projetos interdisciplinares, as práticas de escuta qualificada e as atividades voltadas ao fortalecimento da autoestima e da autonomia dos estudantes.
Além disso, práticas avaliativas formativas contribuem para reduzir a ansiedade associada ao desempenho escolar, permitindo que a avaliação seja compreendida como instrumento de aprendizagem e não apenas de classificação. Essa mudança favorece maior engajamento dos estudantes e fortalece sua percepção de competência acadêmica.
Nesse contexto, torna-se evidente que o desenvolvimento das competências socioemocionais beneficia todos os estudantes, mas assume importância ainda maior para aqueles expostos a situações de vulnerabilidade social, cujas experiências de vida frequentemente são marcadas por insegurança, instabilidade e exclusão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A aprendizagem escolar constitui um processo complexo, dinâmico e multidimensional, no qual aspectos cognitivos, emocionais, sociais e culturais se articulam de maneira indissociável. Ao longo deste estudo, buscou-se analisar a influência dos fatores emocionais no processo de aprendizagem de alunos em situação de vulnerabilidade social, partindo do pressuposto de que o desenvolvimento humano não pode ser compreendido apenas sob a ótica do desempenho acadêmico, mas deve considerar as condições objetivas de vida, as experiências afetivas e as relações sociais que permeiam o cotidiano dos estudantes.
A revisão da literatura evidenciou que as emoções desempenham papel central na construção do conhecimento, influenciando processos cognitivos essenciais, como atenção, memória, motivação, linguagem, funções executivas e autorregulação. Contribuições da Psicologia Histórico-Cultural, da Psicologia do Desenvolvimento e das Neurociências demonstram que experiências emocionais positivas favorecem o desenvolvimento das potencialidades humanas, enquanto situações recorrentes de medo, ansiedade, violência, insegurança e estresse podem comprometer significativamente a aprendizagem e o desenvolvimento integral.
Os resultados da pesquisa também permitiram compreender que a vulnerabilidade social não deve ser interpretada apenas como insuficiência de recursos econômicos, mas como um fenômeno multidimensional, caracterizado pela interação entre desigualdades sociais, fragilidade dos vínculos familiares, exclusão, violência, insegurança alimentar e dificuldades de acesso a direitos fundamentais. Essas condições produzem impactos relevantes sobre o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes, repercutindo diretamente na permanência escolar, no rendimento acadêmico, na autoestima e na construção de projetos de vida.
Nesse contexto, a escola assume papel estratégico como espaço de proteção social, desenvolvimento humano e promoção da equidade. Mais do que transmitir conhecimentos, a instituição escolar deve constituir-se como ambiente acolhedor, democrático e comprometido com a construção de relações interpessoais pautadas no respeito, na escuta sensível e na valorização das singularidades dos estudantes. A promoção de um clima escolar positivo fortalece o sentimento de pertencimento, amplia o engajamento nas atividades pedagógicas e favorece o desenvolvimento das competências cognitivas e socioemocionais necessárias à aprendizagem.
A análise realizada evidencia, ainda, que o professor ocupa posição fundamental nesse processo, não como único responsável pela superação das desigualdades sociais, mas como mediador da aprendizagem e agente de construção de ambientes educativos humanizados. A adoção de práticas pedagógicas baseadas na mediação, na aprendizagem colaborativa, na avaliação formativa, no desenvolvimento das competências socioemocionais e na flexibilização das estratégias de ensino amplia significativamente as possibilidades de aprendizagem de estudantes expostos a contextos de vulnerabilidade.
Entretanto, a efetivação dessas práticas depende do fortalecimento da formação inicial e continuada dos profissionais da educação. Torna-se imprescindível que os processos formativos contemplem conhecimentos relacionados ao desenvolvimento socioemocional, à saúde mental, às desigualdades educacionais, aos direitos humanos e às estratégias pedagógicas voltadas ao acolhimento e à promoção da aprendizagem em contextos socialmente complexos. Além disso, faz-se necessária a ampliação do trabalho interdisciplinar nas escolas, envolvendo gestores, professores, psicólogos, assistentes sociais e demais profissionais que integram as redes de proteção à infância e à adolescência.
Os achados deste estudo reforçam que políticas públicas educacionais comprometidas com a equidade devem ultrapassar a garantia do acesso à escola, contemplando condições efetivas de permanência, aprendizagem e desenvolvimento integral. Isso implica investimentos em infraestrutura, valorização dos profissionais da educação, fortalecimento das redes de apoio psicossocial, implementação de programas de educação socioemocional e desenvolvimento de ações intersetoriais capazes de enfrentar as múltiplas dimensões da vulnerabilidade social.
Do ponto de vista científico, esta pesquisa contribui para ampliar a compreensão das relações entre fatores emocionais, vulnerabilidade social e aprendizagem, evidenciando que o desempenho escolar resulta da interação entre condições individuais, familiares, institucionais e sociais. A abordagem interdisciplinar adotada permite superar interpretações reducionistas que atribuem exclusivamente ao estudante a responsabilidade pelo fracasso escolar, reafirmando a necessidade de compreender a aprendizagem como fenômeno histórico, social e culturalmente construído.
Por tratar-se de uma pesquisa bibliográfica, este estudo apresenta limitações inerentes à ausência de investigação empírica em contextos escolares específicos. Dessa forma, recomenda-se que pesquisas futuras desenvolvam estudos de campo, pesquisas longitudinais e investigações de natureza qualitativa e quantitativa que analisem as experiências de estudantes, professores, gestores e famílias em diferentes realidades educacionais brasileiras. Também se mostra relevante avaliar os impactos de programas de educação socioemocional, de políticas de acolhimento escolar e de estratégias de formação docente sobre os indicadores de aprendizagem e permanência escolar.
Conclui-se, portanto, que promover a aprendizagem de estudantes em situação de vulnerabilidade social exige reconhecer que emoções, relações sociais e condições de vida constituem dimensões inseparáveis do processo educativo. A construção de uma escola verdadeiramente democrática pressupõe o compromisso coletivo com a valorização da diversidade, a promoção da justiça social e a garantia de oportunidades educacionais capazes de favorecer o desenvolvimento pleno de todos os estudantes. Nessa perspectiva, investir na dimensão emocional da educação significa fortalecer não apenas o desempenho acadêmico, mas também a formação de sujeitos autônomos, críticos, resilientes e preparados para participar de forma ativa e consciente da vida em sociedade.
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