A importância do desenho na Educação Infantil

Regiane Priscila Bueno

Delza Aparecida Costa de Andrade

 

DOI: 10.5281/zenodo.21791653

 

 

RESUMO

O presente artigo faz um breve levantamento sobre o desenho infantil e a sua importância nas práticas pedagógicas aplicadas à educação infantil, o desenho é uma importante ferramenta no dia a dia escolar, sendo uma linguagem de comunicação para as crianças mesmo antes de frequentarem as instituições escolares. Para a criança o desenho não é apenas arte, mas uma forma de expressar seus sentimentos e linguagem, é fundamental para o desenvolvimento global, atuando como linguagem expressiva, ferramenta cognitiva e motora. Ele permite que crianças externalizem emoções difíceis de verbalizar, estimula a criatividade, imaginação e prepara para a escrita (coordenação fina), além de ser uma forma de compreensão e representação do mundo. É fundamental promover experiências e possibilidades de exploração de diferentes suportes e riscantes que ajudem as crianças a desenvolver seu percurso gráfico, demonstrando a expressão infantil em suas diferentes linguagens.

 

Palavras-chave: Educação Infantil. Desenho infantil. Infância. Educador. Escrita.

 

 

ABSTRACT

This article provides a brief overview of children's drawing and its importance in pedagogical practices applied to early childhood education. Drawing is an important tool in daily school life, serving as a language of communication for children even before they attend school. For children, drawing is not just art, but a way to express their feelings and language. It is fundamental for overall development, acting as an expressive language, a cognitive and motor tool. It allows children to externalize emotions that are difficult to verbalize, stimulates creativity and imagination, and prepares them for writing (fine motor coordination), in addition to being a way of understanding and representing the world. It is essential to promote experiences and opportunities for exploring different surfaces and drawing tools that help children develop their graphic journey, demonstrating children's expression in its different languages.

 

Keywords: Early childhood education. Children's drawing. Childhood. Educator. Writing.

 

 

INTRODUÇÃO

 

O desenho, além de constituir uma atividade lúdica e prazerosa, desempenha um papel fundamental no desenvolvimento infantil ao possibilitar que a criança estabeleça conexões entre o mundo real e o imaginário. Essa linguagem representa um importante meio de comunicação, por meio do qual a criança expressa sentimentos, desejos, percepções e ideias que, muitas vezes, ainda não consegue verbalizar ou registrar por escrito, especialmente nos primeiros anos de vida.

O contato com o desenho inicia-se desde a primeira infância, quando a criança observa adultos e outras crianças realizando atividades como escrever, desenhar ou fazer marcas sobre diferentes superfícies. Inicialmente, sua motivação está relacionada ao prazer de explorar os movimentos, produzir traços e ocupar espaços, em um processo espontâneo de experimentação e descoberta. À medida que seu desenvolvimento avança, esses registros gráficos tornam-se cada vez mais intencionais, passando a representar pessoas, objetos, situações e experiências vivenciadas, constituindo uma importante forma de expressão, comunicação e construção do conhecimento.

O desenho não é apenas uma brincadeira, mas um exercício estruturado de linguagem e coordenação, essencial para o sucesso na alfabetização.

 

O desenho infantil é a marca da criança, pois antes de aprender a escrever, ela serve do desenho como escrita. Desenha para falar de seus medos, descobertas, alegrias e tristezas. No ato de desenhar percebe-se que os pensamentos e sentimentos caminham juntos. A sua marca possui características próprias que varia conforme a idade e a cultura. Quando desenha diz algo importante, pois as suas representações materializam imagens mentais do que a criança conhece e registra em sua memória. MOREIRA (apud SILVA & TAVARES, 2010, p.5)

 

Segundo (Curitiba, 2011, p. 19) “as crianças pequenas vivenciam o desenho na exploração de diferentes suportes e riscantes, como lápis, caneta, giz, carvão, tinta, pincel, gravetos, e outros materiais que possibilitam a ampliação do seu percurso gráfico, pois “ao rabiscar e desenhar no chão, na areia e nos muros, ao utilizar materiais encontrados ao acaso (gravetos, pedras, carvão), ao pintar objetos e até mesmo o seu corpo, a criança pode utilizar-se das artes visuais para expressar experiências sensíveis”.

Através do desenho a criança desenvolve imaginação, conhecimento de mundo, criatividade, a linguagem, a escrita; segundo Vygotsky (1998) em seu livro em seu livro a formação social da mente O desenho é uma linguagem gráfica que tem o seu antecedente na linguagem falada. [...] “O desenho das crianças não é um reflexo passivo da realidade, mas uma reconstrução criativa e mediada de sua experiência”

O registro dos desenhos infantis constitui um importante recurso para que os professores acompanhem o desenvolvimento das crianças em diferentes dimensões, como os aspectos cognitivos, motores, emocionais e sociais. Além de favorecer experiências lúdicas e criativas, o desenho oferece indícios valiosos sobre a forma como a criança percebe o mundo, organiza seu pensamento e expressa seus sentimentos.

As primeiras manifestações gráficas surgem, em geral, entre os 18 e os 24 meses de idade, por meio das chamadas garatujas. Inicialmente, esses traços apresentam-se de maneira aparentemente desordenada e, muitas vezes, não possuem significado evidente para os adultos. No entanto, para a própria criança, essas produções já carregam intenções e sentidos relacionados às suas experiências e descobertas. Com o avanço do desenvolvimento, as garatujas tornam-se progressivamente mais organizadas, evoluindo para representações gráficas cada vez mais intencionais e compreensíveis, refletindo o amadurecimento de suas capacidades perceptivas, motoras e simbólicas.

Nessa fase as crianças, que se encantam com o movimento do lápis que está em suas mãos e que vai deixando um sinal na folha branca. O ideal é oferecer papéis e lápis para elas ou então ela se valerá de outras superfícies como móveis, paredes e até o próprio corpo para satisfazer esta vontade.

A prática diária do desenho na escola é, portanto, um direito da criança e uma ferramenta pedagógica indispensável para o seu desenvolvimento integral.

 

 

O DESENHO

 

O desenho surgiu na pré-história como forma de comunicação e registro, com humanos gravando cenas do cotidiano e animais em paredes de cavernas. Evoluiu da arte rupestre para planos arquitetônicos no Egito, tornou-se ferramenta de expressão artística e religiosa ao longo dos séculos, e ganhou movimento no final do século XIX através de brinquedos ópticos e do praxinoscópio.

Desde o homem primitivo os primeiros registros do foram realizados por meio do desenho, feito por pinturas rupestres, escrevendo em paredes seus conhecimentos, necessidades, desejos e divindades, mesmo depois com a evolução da espécie, as representações gráficas também evoluíram, mas não deixaram de ser utilizadas, sendo aliadas a outros elementos para a comunicação, expressão de ideias, pensamentos.

Sendo tão antigo quanto a humanidade os registros gráficos se iniciam na infância, antes mesmo das crianças frequentarem as escolas, através de garatujas que vão ganhando forma com o desenvolvimento da criança e seus interesses.

Nosso mundo moderno é rodeado de desenhos, símbolos e sinais gráficos, existem símbolos e códigos da vida cotidiana que transmitem informações, como por exemplo as placas de sinalização de trânsito, que possuem uma gramática própria, formada por cores, formas e traços que permite que sejam entendidas em diferentes partes do mundo por pessoas de diversas idades.

 

Os desenhos e as representações gráficas são fundamentais para a expressão e comunicação entre as pessoas até mesmo “entre aquelas de diferentes lugares, origens, culturas e valores” (Góes; Góes, 2018, p. 141)

 

As crianças usam dos desenhos e rabiscos para expressar a sua compreensão do mundo e das coisas que a cercam, expondo seus conhecimentos, desejos e comunicação com adultos e até mesmo com as próprias crianças. Com o passar do tempo e com experimentações vão percebendo que os desenhos servem para registro e comunicação, possibilitando ampliar seu mundo real e imaginário.

Na Educação Infantil, as crianças expressam suas ideias mesmo antes de saber ler e escrever, como uma linguagem primordial para o desenvolvimento delas.

A evolução do desenho foi impulsionada pela necessidade humana de representar o mundo e contar histórias, passando de superfícies de pedra para o papel e, finalmente, para meios digitais.

 

 

EDUCAÇÃO INFANTIL

 

Com a Constituição Federal, 1988, é contemplado o direito da criança ao acesso à Educação Infantil, possibilitando às famílias assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até cinco anos de idade nas instituições de ensino (Brasil, 1988, Art. 7). Desde então, a Educação Infantil é reestruturada com princípios e conceitos nos quais está fundamentada. Conforme as crianças passaram a ser entendidas e reconhecidas pela sociedade como sujeitos capazes e potentes, a concepção de criança foi se transformando.

A educação infantil é a primeira etapa da educação básica, abrangendo crianças na idade de zero a cinco anos, visando o seu desenvolvimento integral nos seus aspectos físicos, psicológicos, intelectuais e sociais. Na educação infantil as atividades desenvolvidas devem abranger atividades lúdicas, de cuidado, socialização, interação entre pares, promovendo o desenvolvimento de habilidades motoras, sociais e cognitivas; complementando o papel da família e da comunidade da qual a criança está inserida, possuindo papel fundamental para sua formação e desenvolvimento.

São cinco os princípios básicos que norteiam o processo de ensino e aprendizagem segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil: éticos, políticos, estéticos, cognitivos e socioemocionais; segundo a UNESCO são quatro pilares que visam o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos cognitivos, sociais, emocionais e éticos:  aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

A educação infantil está dividida em duas etapas: creche (para crianças de 0 a 3 anos) e pré-escola (para crianças de 4 a 5 anos).  A base nacional comum curricular (BNCC) organiza a educação infantil em três faixas etárias: bebês (0-1 ano e 6 meses), crianças bem pequenas (1 ano e 6 meses a 3 anos e 11 meses) e crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses). O direito à educação infantil é de todos, sendo a sua matrícula em creches facultativa, enquanto a matrícula na pré-escola é obrigatória a partir dos 4 anos de idade.

 

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE). Este documento normativo aplica-se exclusivamente à educação escolar, tal como a define o § 1º do Artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/96), e está orientado pelos princípios éticos, políticos e estéticos que visam à formação humana integral e à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva, como fundamentado nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCN) (Brasil, 2018,)

 

O trabalho na Educação Infantil precisa pensar sobre as propostas que ampliem as possibilidades de comunicação e expressão, considerando as diferentes linguagens infantis (Brasil, 2010) para que a criança conheça e construa seus saberes à medida que age, observe e se relacione com o mundo físico e social, visto que “as crianças possuem uma infinitude de linguagens, desenvolvidas desde muito cedo na relação com o outro e com o mundo, a exemplo do gesto, do desenho, das construções, da música, da dança, da oralidade e da matemática” (Silva, 2021, p. 30).

Tendo a ideia de que a criança possui e produz saberes, que aprende a conhecer o mundo nas experiências diversas, nas interações e na brincadeira, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC - Brasil, 2018) propõe a Educação Infantil como um espaço promotor de seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se; para tornar possível às crianças o desenvolvimento de “um papel ativo em ambientes que as convidem a vivenciar desafios e a sentirem-se provocadas a resolvê-los” (Brasil, 2018, p. 37).

É nesta concepção de Educação Infantil que entendemos que o desenho permite sustentar e comunicar a aprendizagem das crianças.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aborda o desenho infantil integrado às diretrizes de desenvolvimento da Educação Infantil, posicionando-o não como uma mera atividade de passatempo ou cópia, mas como uma linguagem essencial de expressão, comunicação e pensamento.

Abaixo estão os principais pontos de como a BNCC trata o desenho:

 

1. O Desenho no Campo de Experiências "Traços, Sons, Cores e Formas"

 

Na estrutura da BNCC, o desenho está ancorado principalmente no campo de experiências "Traços, sons, cores e formas".

- O documento enfatiza que, por meio das artes visuais (incluindo o desenho, a pintura e a modelagem), as crianças expressam suas emoções, sentimentos, pensamentos e repertórios culturais.

- A BNCC assegura que os pequenos tenham amplas oportunidades de manipular diferentes materiais, suportes e instrumentos (como giz, carvão, tintas, papéis variados) para explorar o espaço e dar vazão à sua criatividade de forma autônoma e espontânea.

 

2. O Desenho como Linguagem e Registro

 

- A BNCC compreende que as crianças produzem cultura e se relacionam com o mundo por meio de múltiplas linguagens. O desenho funciona como um canal legítimo de significação da realidade.

- O documento aponta que, em diversas situações cotidianas — como após a escuta de histórias, vivências de faz de conta ou explorações científicas —, as crianças utilizam o desenho como ferramenta de registro de suas observações, hipóteses e memórias, articulando pensamento e imaginação.

 

3. Direitos de Aprendizagem e Objetivos (Foco no Processo)

 

As diretrizes da BNCC para a Educação Infantil são garantidas por meio dos direitos de aprendizagem (conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se). O desenho transita por todos eles, especialmente em "Explorar" e "Expressar":

- Na faixa etária de creche (bebês e crianças bem pequenas): O foco recai sobre a exploração motora e sensorial dos traços, a descoberta das primeiras marcas gráficas (como as garatujas) e o manuseio progressivo de instrumentos de escrita e desenho.

- Na pré-escola (crianças de 4 a 5 anos): O objetivo ganha complexidade com a habilidade explícita de “expressar-se livremente por meio de desenho, pintura, colagem, dobradura e escultura, criando produções bidimensionais e tridimensionais” (código EI03TS02), valorizando-se sempre o processo criativo autoral e a intenção expressiva da criança, em detrimento de modelos prontos ou estereotipados.

 

 

BENEFÍCIOS DO DESENHO PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL

 

O desenho ocupa um lugar central no desenvolvimento infantil, transcendendo a mera atividade lúdica ou passatempo. Na Educação Infantil, desenhar é uma linguagem viva por meio da qual a criança explora o mundo, organiza suas vivências e comunica seus sentimentos e pensamentos. Longe de ser apenas uma reprodução gráfica da realidade, o traço infantil revela a complexidade do desenvolvimento cognitivo, motor e afetivo dos pequenos.

O desenho na educação tem papel lúdico e prazeroso, ao qual a criança se entrega, inicialmente através das garatujas, em que a criança se utiliza de muitos rabiscos, inicialmente de forma involuntária e, que aos poucos, vão se tornando mais ordenados, até que comece a desenhar com intenção, passando para a fase do desenho propriamente dito.

O meio do qual a criança está inserida, tem papel fundamental no seu interesse pelo desenho e no seu desenvolvimento, o adulto tem papel mediador como decisivo para o aprimoramento do desenho, sendo os momentos conceituais “que representam a gênese das aprendizagens em desenho, construída a partir das suas experiências” (Iavelberg, 2013, p. 20).

Dessa forma, o progresso do desenho das crianças depende de inúmeros fatores, tanto internos quanto externos, individuais e coletivos, contribuindo para o pensamento contemporâneo sobre desenho. É nesta compreensão de desenho que está pautado o processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças.

Os principais benefícios do desenho no processo de ensino e aprendizagem da educação infantil são:

- Desenvolvimento Cognitivo e Intelectual: Estimula o pensamento simbólico, a capacidade de criar hipóteses e a organização das ideias.

- Expressão Emocional e Afetiva: Funciona como um "diário visual", onde crianças relatam medos, alegrias e frustrações, ajudando na compreensão dos seus sentimentos.

- Coordenação Motora Fina:  Ao segurar lápis, giz ou pincéis, a criança desenvolve a motricidade fina, essencial para a futura escrita.

- Representação do Mundo: O desenho permite que a criança explore e entenda o ambiente ao seu redor, registrando o que percebe e imagina.

- Socialização e Identidade: Ajuda na construção da própria identidade e na interação com outras crianças ao compartilhar histórias e produções.

O Desenho na Educação Infantil apresenta considerações sobre alguns estudiosos que pesquisaram e mapearam as fases do desenho das crianças, indicando que os pesquisadores modernos se dedicaram a divisão em etapas ou fases do desenho, normalmente considerando o desenvolvimento biológico e neurológico da criança; enquanto os pesquisadores contemporâneos contemplam, também, as influências culturais e sociais.

Um dos pioneiros a estudar o desenho infantil foi Georges-Henri Luquet, do ponto de vista da evolução desenvolvimentista, considerando “o desenho um jogo ao qual a criança se entrega, jogo tranquilo com função lúdica [...] ele considera o realismo como tendência natural da representação gráfica” (Iavelberg, 2017, p. 37).

 

 

ETAPAS DO DESENHO INFANTIL

 

As fases do desenho infantil representam a evolução cognitiva e motora da criança, indo de rabiscos desordenados à representação realista. As principais etapas, segundo autores como Lowenfeld, são:

1. Garatujas (aproximadamente 1 a 3 anos):

- Desordenada: Rabiscos aleatórios, sem controle motor fino, focados no prazer do movimento (cinestésico).

- Ordenada: A criança ganha controle do traço e começa a dar sentido aos rabiscos.

- Nomeação das Garatujas: A criança desenha e nomeia o que fez, mesmo que não seja reconhecível.

2. Fase Pré-Esquemática (3 a 6 anos):

- Surgem as primeiras formas reconhecíveis, como círculos e linhas que representam pessoas (cabeça e membros), casas e objetos.

- A cor é usada de forma emocional, não realista.

- As figuras flutuam na página, sem uma linha de base definida.

3. Fase Esquemática (6 a 9 anos):

- A criança define um "esquema" para representar objetos e pessoas.

- Aparece a linha de base (chão) e a linha do céu, organizando o espaço.

- A cor passa a corresponder à realidade do objeto.

- O desenho torna-se mais detalhado e as figuras humanas são mais completas.

4. Realismo ou Fase Pseudonaturalista (9 anos em diante):

- Maior preocupação com o realismo, detalhes, proporções e perspectiva.

- A criança utiliza sobreposição e nuances de cor para dar tridimensionalidade.

- É uma fase de autocrítica elevada, onde o desenho se aproxima mais da representação do mundo real.

Essas fases não são rígidas e podem variar de acordo com o estímulo e o contexto social da criança, sendo essencial incentivar a criatividade sem cobrar realismo nas etapas iniciais.

 

 

DESENHO E DESENVOLVIMENTO DA INFÂNCIA

 

Para a criança pequena, o desenho funciona como uma forma de pensamento visível. Antes mesmo de dominar plenamente a escrita convencional, os pequenos utilizam o papel e o lápis para externalizar ideias, teorias sobre o funcionamento do mundo e memórias.

Segundo Vygotsky (1998) aponta que o desenho é uma etapa intermediária crucial para o desenvolvimento da linguagem escrita, funcionando como uma "fala gráfica". Quando a criança desenha, ela simboliza objetos, pessoas e situações, exercitando a capacidade de abstração. O rabisco inicial já carrega significado: a criança não desenha o que vê, mas o que sabe sobre o objeto. Assim, o desenho atua como um potente instrumento de registro do pensamento, permitindo que a criança reflita sobre sua própria realidade e organize suas experiências mentais.

O desenho infantil constitui uma importante forma de expressão, por meio da qual a criança manifesta sentimentos, percepções, experiências e interpretações da realidade. Ao representar graficamente suas vivências, ela comunica aspectos que, muitas vezes, ainda não consegue expressar por meio da linguagem oral ou escrita. Por esse motivo, o desenho pode ser utilizado como um valioso recurso para compreender o desenvolvimento infantil em diferentes dimensões.

No aspecto emocional, o desenho possibilita que a criança expresse emoções como alegria, tristeza, medo, insegurança, ansiedade e outros sentimentos que ainda não consegue identificar ou verbalizar. Durante a primeira infância, essa linguagem desempenha um papel significativo na elaboração das experiências emocionais, funcionando como um importante meio de comunicação e expressão afetiva.

Sob a perspectiva cognitiva, o desenho permite observar como a criança compreende e interpreta o mundo ao seu redor. Ao representar pessoas, objetos, ambientes e situações, ela organiza seus pensamentos, constrói significados e demonstra o nível de desenvolvimento de suas capacidades cognitivas. Como esse processo resulta das interações estabelecidas com o meio físico, social e cultural, as produções gráficas variam de acordo com as experiências individuais de cada criança.

No que se refere ao desenvolvimento psicomotor, o ato de desenhar favorece o aprimoramento da coordenação motora fina, do controle dos movimentos e da percepção espacial. À medida que pratica essa atividade, a criança adquire maior precisão no manuseio de lápis, pincéis e outros materiais, aperfeiçoando gradativamente seus traços, sua coordenação visomotora e sua destreza manual.

Na dimensão social, o desenho reflete as experiências vividas pela criança em seu contexto familiar, escolar e comunitário. Por meio de suas representações, ela demonstra como percebe as relações interpessoais, os acontecimentos do cotidiano e os elementos culturais que fazem parte de sua realidade. Dessa maneira, o desenho contribui para a construção da identidade, do sentimento de pertencimento e da compreensão de seu papel como sujeito inserido em uma sociedade.

Diante dessas contribuições, torna-se fundamental que a família e a escola ofereçam às crianças oportunidades, espaços e materiais adequados para a realização de atividades de desenho. O incentivo a essa prática favorece não apenas o desenvolvimento da criatividade, da imaginação e da curiosidade, mas também amplia as possibilidades de expressão, comunicação e aprendizagem, contribuindo para o desenvolvimento integral da criança.

O ato de desenhar floresce com mais intensidade quando está atrelado ao cotidiano infantil, impulsionado por histórias e brincadeiras. A contação de histórias estimula o imaginário, transportando a criança para universos fantásticos que ela deseja materializar no papel.

Quando uma narrativa é seguida por uma proposta de criação espontânea, o desenho deixa de ser uma tarefa dirigida e passa a ser uma extensão da vivência lúdica. Brincadeiras do dia a dia — como faz de conta, jogos de papéis ou interações com o meio — fornecem o repertório emocional necessário. A criança desenha o herói da história ou a dinâmica da brincadeira que acabou de vivenciar, integrando afeto, cognição e imaginação em uma única produção

O desenho é uma forma fundamental de linguagem e comunicação, especialmente na infância, permitindo a expressão de sentimentos, pensamentos e a compreensão do mundo. Ele atua como um registro gráfico de emoções, criatividade e visão de mundo que muitas vezes antecede ou complementa a linguagem falada.

Desenhar permite que crianças e adultos exteriorizem angústias, medos, alegrias e conceitos que não conseguem verbalizar, funcionando como uma "voz" particular. O desenho evolui em paralelo ao crescimento, indo de garatujas (18-24 meses) até formas mais realistas e conceituais, refletindo o amadurecimento cognitivo e motor.

Na educação, o desenho não é apenas arte, mas um "jogo imaginativo" e uma ferramenta de trabalho pedagógico que valoriza o processo criativo, e não apenas o produto final. O desenho é um espelho da criança, permitindo que pais e educadores compreendam o que se passa no universo interior infantil e como ela interpreta o seu cotidiano, é uma linguagem potente que traduz a experiência vivencial em marcas gráficas, permitindo a construção do pensamento e a representação do imaginário.

 

 

O PAPEL DO EDUCADOR

 

O papel do professor não é apenas ensinar a desenhar, mas oferecer materiais variados e criar um ambiente que estimule a livre expressão. O desenho, desde as primeiras garatujas até formas mais estruturadas, deve ser valorizado como uma forma de linguagem séria e um instrumento de diagnóstico pedagógico. 

A educação infantil deve ser um espaço para que a criança possa ser estimulada a adquirir novos conhecimentos, nesta fase, é de grande importância um educador que se torne mediador entre a criança e o objeto de conhecimento,

Por isso, esse ensino deve iniciar-se na Educação Infantil, despertando sempre o interesse da criança para atividades artísticas que auxiliem no seu desenvolvimento e formação.

A criança recebe influência da arte desde cedo através das cores, vendo a TV, em um quadro, em figuras de parede, nas ruas, em casa, nos brinquedos, em todos os lugares presentes no cotidiano infantil. Dessa forma, a criança chega à escola com conhecimentos prévios sobre o desenho e sobre artes visuais.

 

O desenho serve para que a criança em determinada etapa da infância ela possa expressar tudo sobre a sua vivência pois é assim que, por meio do desenho, que a criança cria e recria individualmente formas expressivas, integrando percepções, imaginação, reflexão e sensibilidade, que podem então ser apropriadas pelas leituras simbólicas de outras crianças e adultos. (RCNEI,1998, p.93).

 

Os primeiros rabiscos são feitos de forma exploratória, pois ainda está em processo o conhecimento do “objeto”, quando inicia o desenvolvimento destes rabiscos vão se constituindo as chamadas garatujas, na qual a criança passa a expressar nos desenhos o que está vivenciando, começa a passar sentidos e sentimentos para o desenho, o educador não ensina "a desenhar" como uma técnica de cópia, mas facilita o desenho como uma linguagem de apropriação do mundo e de autoexpressão, garantindo que seja um ato prazeroso, cultural e investigativo.

 

O desenho é o modo imediato de registro do nosso olhar. Por meio dele, interpretamos o que vemos, o que sentimos e nossa relação com o mundo. [...] É onde o pensamento [...] se materializa, organiza, expressa e constrói. O desenho como meio de conhecimento, de apropriação, de comunhão. É a figura do desejo: desejo inconsciente de expressar algo indizível (Eluf, 2008, p. 05).

 

Segundo (Teófilo, 2012, p. 187) o desenho cria conexões com aquele que desenha, todo corpo participa do processo, a imaginação é estimulada junto com as mãos e olhos que estão presentes nesse processo, todo desenho é original é a imagem captada por aquele que desenha, nessa fase do desenvolvimento, a criança amplia sua compreensão do mundo por meio das experiências vivenciadas no cotidiano. É um período marcado pela exploração das relações interpessoais, dos vínculos afetivos, dos objetos, da natureza, do próprio corpo e de suas possibilidades de movimento. Além disso, desenvolvem-se diferentes formas de expressão, a construção de significados, a capacidade de representação e o potencial criativo, aspectos fundamentais para o desenvolvimento integral e para a aprendizagem.

 

 

A IMPORTÂNCIA DO DESENHO PARA A AQUISIÇÃO DA ESCRITA

 

O desenho antecede e acompanha o desenvolvimento da escrita, sendo fundamental para a alfabetização, ele prepara a musculatura da mão (coordenação motora fina), organiza o pensamento gráfico e transforma ideias em símbolos, servindo como uma etapa preparatória onde a criança representa o mundo antes de dominar as letras.

O desenho é uma das primeiras formas de expressão das crianças, permitindo que elas representam o mundo ao seu redor, tornando importante o seu papel na alfabetização.

 

“A alfabetização não é apenas o aprendizado das letras, mas um processo de apropriação da linguagem, no qual o desenho desempenha um papel essencial na construção do pensamento gráfico e simbólico.” (Ferreiro, 1999)

 

O desenho é a base do pensamento gráfico. Rabiscos (garatujas) evoluem para formas planejadas, treinando o cérebro para a representação simbólica necessária na escrita.

Segundo Vigotski, o desenho é um precursor. Antes de escrever palavras, a criança desenha para contar histórias e expressar sentimentos que ainda não consegue verbalizar. A transição do desenho para a escrita ocorre quando a criança percebe que traços podem representar sons e significados, com o desenho da figura humana sendo um marco importante.

A criança quando desenha, ela não só está rabiscando, como está permitindo expressar emoções, ideias e percepções do mundo antes mesmo de dominar a escrita. Vygotsky (1930) comenta que: “O desenho é a primeira forma de escrita da criança. Ele começa como uma representação do mundo e gradualmente se transforma em um sistema de signos que se aproxima da linguagem escrita.” Vygotsky (1934) menciona também que: “O desenho é uma fase intermediária no desenvolvimento da escrita. Antes que a criança compreenda o valor simbólico das letras, ela já expressa seu pensamento por meio de imagens gráficas, que funcionam como um sistema primitivo de comunicação.”

A estimulação é muito importante por isso deve-se oferecer materiais variados e valorizar os rabiscos espontâneos é crucial, pois ajuda no desenvolvimento cognitivo e motor, servindo como uma ponte natural para a linguagem escrita. O desenho não é apenas uma brincadeira, mas um exercício estruturado de linguagem e coordenação, essencial para o sucesso na alfabetização.

Muitos estudos já foram feitos relacionando a prática do desenho com a escrita, mostrando que com a prática de desenhar, pode ser uma forma interessante para fazer a criança se estimular na melhor forma com a escrita. A criança quando está desenhando, ela passa para o papel suas expressões, transmitindo o seu mundo imaginário.

O desenho e a escrita estão intimamente relacionados, pois ambos são instrumentos de organização do pensamento e da comunicação. No processo pedagógico, a transição do desenho para a escrita deve ser entendida como parte de um desenvolvimento contínuo e interdependente.

Atividades que envolvem a produção de histórias ilustradas, releitura de desenhos e escrita espontânea favorecem o desenvolvimento das habilidades linguísticas e cognitivas. Além disso, o incentivo ao uso de diferentes materiais e suportes contribui para a experimentação e evolução da expressão escrita.

Quando ensinamos a criança a desenhar, ela pode se sentir mais estimulada para escrever, fazendo com que possa ajudar no desenvolvimento da escrita.

 

No desenho e na escrita o bom êxito depende da mesma faculdade, – a faculdade de imitação, sendo porém, o desenho, como mais simples, nos seus elementos, do que a escrita, mais fácil de adquirir do que ela. Está hoje amplamente demonstrado que quem pode aprender a escrever, pode aprender a desenhar, e onde estas disciplinas se ensinam simultaneamente, uma à outra se ajudam […] (SMITH apud BARBOSA, 1946, p. 113, grifos do autor).

 

Sendo assim, aprender a desenhar pode ser um facilitador para a alfabetização, desenhando a criança pode desenvolver melhor a escrita favorecendo as suas habilidades motoras podendo se expressar melhor sobre o papel.

 

A criança não o é menos pelo gênio da imitação. Todos os meninos desenham, por um natural pendor dos mais enérgicos instintos dessa idade. Modelar formas, e debuxar imagens: eis a primeira e a mais geral expressão da capacidade criadora nas gerações nascentes. Cabe, pois, ao desenho, no programa escolar, precedência à escrita, cujo ensino facilita, e prepara. Racionalmente, naturalmente, à leitura antecede a escrita, e à escrita o desenho e a modelação (BARBOSA, 1946, p. 64).

 

Ensinar a criança a desenhar juntamente com a alfabetização, pode ajudar na sua caligrafia. As crianças gostam de desenhar, e se forem estimuladas a aprenderem, a aprendizagem do desenho pode ser um facilitador para os alunos. O desenho e a escrita são linguagens complementares no desenvolvimento infantil. A escrita não substitui o desenho, mas amplia suas possibilidades comunicativas e cognitivas. O estímulo ao desenho como prática pedagógica no primeiro ano do Ensino Fundamental I favorece a criatividade, a expressão e a construção do pensamento, tornando-se um facilitador do processo de alfabetização e letramento.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O desenho constitui uma atividade lúdica, prazerosa e de fácil realização, desempenhando um papel que vai além do entretenimento. Além de favorecer o desenvolvimento infantil, também representa um importante instrumento de investigação e compreensão das experiências, percepções e emoções da criança. Por essa razão, é fundamental que professores, demais profissionais da educação e a sociedade reconheçam o valor pedagógico e expressivo dessa forma de linguagem.

Nesse contexto, o desenho revela-se um importante recurso para estimular a comunicação, a interação e a expressão das crianças no ambiente escolar. Conforme apontam diversos estudiosos da área, o desenho infantil possibilita que a criança manifeste seus sentimentos, pensamentos, vivências e interpretações da realidade, muitas vezes antes mesmo de dominar plenamente a linguagem escrita.

Considerando que a arte está presente em diferentes espaços da vida social e educacional, torna-se essencial compreender sua contribuição para o desenvolvimento integral da criança e seu potencial como recurso pedagógico. Assim, ao conhecer os benefícios proporcionados pelas atividades artísticas, especialmente pelo desenho, o professor pode incorporá-las de forma intencional ao processo de ensino e aprendizagem. Para isso, é importante compreender não apenas as etapas da evolução do grafismo infantil, mas também reconhecer que desenhar é uma manifestação espontânea da criança, motivada por seu impulso natural de criar, comunicar e atribuir significado às suas experiências.

 

Para quem a criança desenha? Primeiro para si próprio, como quando brinca. Mas seu desenho dirige-se sempre a alguém real ou imaginário, quase sempre sua mãe, seu pai ou algum dos que a cercam. É um dom, saído de suas próprias mãos e de que ela espera alguma coisa em troca [...] (ARFOUILLOUX, 1997, p.129)

 

Após compreender os benefícios do desenho para o desenvolvimento infantil, torna-se fundamental refletir sobre formas de incorporá-lo de maneira significativa às práticas pedagógicas. Nesse sentido, aprofundar os conhecimentos acerca do grafismo infantil e ampliar as oportunidades para que as crianças utilizem o desenho no ambiente escolar constituem importantes desafios para educadores e pesquisadores. A busca por estratégias que valorizem essa linguagem contribui tanto para o aperfeiçoamento da prática docente quanto para a promoção do desenvolvimento integral dos estudantes.

Na Educação Infantil, o desenho deve ser reconhecido como um direito da criança à expressão, à imaginação e à criação, sendo respeitada sua produção espontânea, sem a imposição de modelos padronizados ou cópias estereotipadas. Quando integrado às brincadeiras, às interações e às experiências vivenciadas no cotidiano escolar, o desenho torna-se um importante meio de comunicação e construção de conhecimentos. Dessa forma, a escola valoriza as manifestações infantis, fortalece a autonomia, incentiva a criatividade e favorece o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social e cultural das crianças.

 

 

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