A música como ferramenta de ensino e aprendizagem na educação infantil
Luzinete da Silva Mussi[1]
RESUMO
O presente artigo analisa o papel da música como linguagem e recurso pedagógico essencial no processo de ensino e aprendizagem na Educação Infantil. O objetivo geral consiste em investigar como as atividades musicais contribuem para o desenvolvimento integral da criança nas dimensões cognitiva, socioemocional, motora e linguística. A metodologia adotada fundamenta-se em uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, respaldada por autores de referência na área da pedagogia, psicologia do desenvolvimento e musicalização infantil, tais como Vygotsky, Piaget, Gardner e Alencar de Brito, além de diretrizes normativas vigentes como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Os resultados indicam que a vivência musical intencional no cotidiano escolar amplia a percepção auditiva, fortalece a memória, a atenção e a coordenação motora, além de favorecer a socialização e a expressão de emoções. Conclui-se que a música não deve ser utilizada meramente como fundo sonoro ou recurso de rotina disciplinar, mas sim integrada ao currículo de forma estruturada, promovendo uma prática educativa emancipadora, lúdica e significativa.
Palavras-chave: Educação Infantil. Música. Aprendizagem. Desenvolvimento Integral. BNCC.
Introdução
A Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, destaca-se como um período determinante na formação do indivíduo, no qual a criança vivencia transformações profundas nas áreas motora, cognitiva, afetiva e social. Nesse contexto, o lúdico e as diferentes linguagens artísticas desempenham papéis estruturantes na mediação do conhecimento. Entre essas linguagens, a música sobressai-se como uma das manifestações culturais e expressivas mais antigas e inerentes à experiência humana, acompanhando o desenvolvimento infantil desde as primeiras interações do bebê com o ambiente e com seus cuidadores.
Apesar de sua reconhecida importância, observa-se frequentemente que, em diversos espaços escolares, o recurso musical é reduzido a uma função meramente utilitária, servindo prioritariamente como sinalizador de rotinas (como momentos de higiene, lanche ou organização) ou como entretenimento passivo. Diante desse cenário, emerge a seguinte problematização: de que forma a música pode ser intencionalmente estruturada e utilizada pelos educadores como ferramenta pedagógica transformadora, impulsionando a aprendizagem e o desenvolvimento integral na infância?
O objetivo deste artigo é analisar a relevância da música como instrumento metodológico de ensino-aprendizagem na Educação Infantil, identificando suas contribuições específicas no estímulo à linguagem verbal, no raciocínio lógico, na coordenação psicomotora e nas relações interpessoais. Para alcançar esse propósito, realizou-se uma pesquisa bibliográfica com embasamento teórico-normativo, fundamentada nas concepções de teóricos da educação e nos documentos legais que regem a Educação Básica no Brasil.
Desenvolvimento
O Desenvolvimento Infantil sob a Ótica da Musicalização
A neurociência e a psicologia do desenvolvimento demonstram que o cérebro da criança em idade pré-escolar apresenta elevada plasticidade neural, reagindo intensamente a estímulos sensoriais. A experiência musical engaja múltiplas áreas cerebrais simultaneamente, conectando os hemisférios esquerdo e direito ao integrar ritmo, melodia, movimento e emoção. De acordo com os pressupostos de Vygotsky (1998), a aprendizagem ocorre por meio da mediação cultural e da interação social, sendo o ambiente escolar o responsável por promover ferramentas simbólicas que ampliem as funções psicológicas superiores.
Focada no impacto do estímulo sonoro na arquitetura cerebral, Muszkat (2012), diz:
A neurociência e a psicologia do desenvolvimento demonstram que o cérebro da criança em idade pré-escolar apresenta elevada plasticidade neural, reagindo intensamente a estímulos sensoriais. A experiência musical engaja múltiplas áreas cerebrais simultaneamente, conectando os hemisférios esquerdo e direito ao integrar ritmo, melodia, movimento e emoção. Nesse sentido, ele reforça que a prática musical contínua na infância induz a modificações estruturais e funcionais no sistema nervoso, fortalecendo a rede de conexões interhemisféricas e potencializando a capacidade de aprendizado. De acordo com os pressupostos de Vygotsky (1998), a aprendizagem ocorre por meio da mediação cultural e da interação social, sendo o ambiente escolar o responsável por promover ferramentas simbólicas que ampliem as funções psicológicas superiores.
Quanto ao desenvolvimento motor e sensorial integrados, Relvas (2012 salienta que:
A neurociência e a psicologia do desenvolvimento demonstram que o cérebro da criança em idade pré-escolar apresenta elevada plasticidade neural, reagindo intensamente a estímulos sensoriais. A experiência musical engaja múltiplas áreas cerebrais simultaneamente, conectando os hemisférios esquerdo e direito ao integrar ritmo, melodia, movimento e emoção. Sob essa ótica, as vivências sonoro-musicais ativam circuitos neurais integrados que favorecem a atenção, a memória e a coordenação motora, otimizando o processamento das informações pelo cérebro em formação. De acordo com os pressupostos de Vygotsky (1998), a aprendizagem ocorre por meio da mediação cultural e da interação social, sendo o ambiente escolar o responsável por promover ferramentas simbólicas que ampliem as funções psicológicas superiores.
Nessa perspectiva, o som, o ritmo e a harmonia atuam como instrumentos mediadores essenciais. Piaget (1975) também aponta que a criança constrói seu conhecimento por meio da ação sobre o meio, na transição da fase sensório-motora para a pré-operatória. Ao manipular instrumentos sonoros, bater palmas, acompanhar ritmos com o corpo e explorar timbres diferenciados, a criança consolida noções fundamentais de espaço, tempo, intensidade e causalidade.
Howard Gardner (1995), ao formular a Teoria das Inteligências Múltiplas, destaca a Inteligência Musical como uma das faculdades autônomas da mente humana, presente desde os primeiros anos de vida. Segundo o autor, o estímulo precoce a essa inteligência favorece o desenvolvimento de competências em outras áreas do saber, como a matemática (compreensão de padrões e proporções) e a linguística (reconhecimento de fonemas e prosódia).
A Música na BNCC: O Campo de Experiência "Traços, Sons, Cores e Formas"
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) consolida a música como direito de aprendizagem e desenvolvimento no âmbito da Educação Infantil. Inserida no campo de experiência intitulado "Traços, sons, cores e formas", a linguagem musical é reconhecida em sua dimensão expressiva e estética, encorajando as crianças a explorarem sons de diferentes fontes e a produzirem suas próprias manifestações artísticas (BRASIL, 2017).
Na Educação Infantil, o trabalho desenvolvido no campo "Traços, sons, cores e formas" amplia o repertório cultural das crianças ao incentivar a escuta atenta, o reconhecimento de timbres e ritmos e a expressão de sentimentos e ideias por meio de linguagens sonoras e visuais (Brasil, 2017).
A BNCC estabelece que o convívio com a diversidade musical permite à criança ampliar seu repertório cultural, desenvolver a escuta atenta e expressar hipóteses, sentimentos e memórias. O documento orienta que os educadores promovam experiências que vão além da mera reprodução mecânica de canções, criando ambientes em que a criação, a improvisação e a experimentação sonora sejam incentivadas de maneira constante e intencional.
Ao estruturar as vivências musicais dentro do campo "Traços, sons, cores e formas", as diretrizes curriculares nacionais preconizam que os educadores promovam momentos de investigação, em que os alunos possam interagir com objetos cotidianos e instrumentos para produzir e transformar sons (Brasil, 2017).
Estratégias Pedagógicas e a Prática Docente
Para que a música cumpra seu papel formativo na Educação Infantil, faz-se indispensável o planejamento pedagógico intencional por parte do educador. Como afirma Brito (2003), musicalizar não significa formar músicos profissionais, mas sim proporcionar à criança a oportunidade de ouvir, sentir, criar e comunicar-se por meio do som.
Segundo OSTETTO, 2000, p. 28...
O planejamento na Educação Infantil exige do professor uma escuta e um olhar atentos às especificidades da infância, no qual as propostas e atividades pedagógicas — incluindo as vivências musicais — deixam de ser meras tarefas mecânicas para se tornarem momentos intencionais de criação, descoberta e significado para a criança.
De acordo com Libâneo (1994):
O planejamento da prática docente é a ferramenta responsável por organizar e prever a intencionalidade das atividades pedagógicas; assim, a inserção de jogos rítmicos, cantigas e exploração sonora no cotidiano escolar exige do educador um objetivo pedagógico claro que supere a simples ocupação do tempo ou o cumprimento mecânico de rotinas.
A música na escola de educação infantil deve ser compreendida como uma linguagem ao alcance de todas as crianças, capaz de integrar o saber fazer, o saber sentir e o saber pensar. A escuta ativa, o jogo sonoro e o brincar com a voz e o corpo são caminhos fundamentais para a ampliação do universo cultural e expressivo infantil. (BRITO, 2003, p. 45).
Conforme salienta Brito (2003), a ação do professor na Educação Infantil não deve focar em uma formação técnica instrumental, mas sim no oferecimento de estratégias pedagógicas que permitam à criança pesquisar timbres, inventar sons e utilizar a linguagem musical como meio legítimo de expressão e comunicação.
Entre as estratégias metodológicas eficazes, destacam-se:
· Rodas de cantiga e parlendas: estimulam a memória auditiva e a consciência fonológica, essenciais para a alfabetização posterior;
· Jogos rítmicos corporais: exploração de palmas, pés e estalos para o desenvolvimento da lateralidade, equilíbrio e esquema corporal;
· Instrumentos alternativos: confecção de instrumentos a partir de materiais recicláveis, explorando sustentabilidade, acústica e criatividade;
· Expressão socioemocional: atividades coletivas que exigem cooperação, respeito ao tempo do outro, percepção de grupo e autorregulação emocional.
Conclusão
O presente estudo evidencia que a música se configura como um recurso pedagógico de inestimável valor para a Educação Infantil, atuando como catalisadora do desenvolvimento cognitivo, linguístico, psicomotor e socioemocional das crianças. Quando utilizada de forma intencional e planejada, a música transcende a condição de simples entretenimento para se consolidar como uma linguagem expressiva que amplia a visão de mundo dos alunos.
Verificou-se que a integração das práticas musicais em consonância com as diretrizes da BNCC favorece a construção da autonomia, da criatividade e da sensibilidade estética. Para que essa potencialidade se concretize no cotidiano das instituições escolares, torna-se essencial investir na formação continuada dos professores de Educação Infantil, capacitando-os a utilizar o elemento sonoro com fundamentação teórica e metodológica, promovendo espaços educativos verdadeiramente plurais e humanizadores.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
BRITO, Teca Alencar de. Música na Educação Infantil: propostas para a formação de professores. São Paulo: Peirópolis, 2003.
GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
VYGOTSKY, Lev Semenovitch. A formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
MUSZKAT, Mauro. Música, neurodesenvolvimento e aprendizagem. In: LIMA, R. F. et al. (Org.). Neurociência e aprendizagem: processos neurobiológicos e implicações pedagógicas. Ribeirão Preto: Booktoy, 2012.
RELVAS, Marta Pires. Neurociência e transtornos de aprendizagem: as múltiplas eficiências para uma educação inclusiva. 5. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base. Brasília: MEC, 2017.
BRITO, Teca Alencar de. Música na Educação Infantil: propostas para a formação de professores. São Paulo: Peirópolis, 2003.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.
OSTETTO, Luciana Esmeralda. Planejamento na Educação Infantil: mais que a atividade, a criança em foco. In: OSTETTO, L. E. (Org.). Encontros e encantamentos na educação infantil: partilhando experiências de estágios. Campinas: Papirus, 2000.
[1] Diretora do Instituto Saber de Ciências Integradas. Pedagoga. Licenciada em Educação Física. Psicopedagoga Clínica e Institucional. Especialista em Educação Especial e Inclusiva e Neuropsicopedagogia Institucional e Clínica, especialista em Autismo, em Sociologia e Filosofia e em Gestão Educacional. Mestra em Ciências da Educação. Atua na Área Educacional desde 1976.

