Costumes e práticas indígenas na cultura brasileira
Cleriston Barbi Queiroz[1]
Daiany Lorraine Vidoi Leal[2]
Joyziara da Silva Moriniga[3]
Roseli Aparecida da Silva[4]
Simone Ferreira Vittorazi[5]
INTRODUÇÃO
O presente trabalho é fruto de uma experiência pedagógica significativa desenvolvida por meio da metodologia de projetos do Programa A União Faz a Vida, com o tema “Costumes e Práticas Indígenas na Cultura Brasileira”, realizado no ano de 2024. A proposta envolveu alunos do 4º ano A, B e D do Ensino Fundamental, juntamente com professores e equipe gestora do Centro Educacional Municipal “Vereador Edson Athier Almeida Tamandaré”, localizado no município de Mirassol d’Oeste – MT.
A iniciativa surgiu com o intuito de proporcionar aos estudantes uma vivência concreta e significativa acerca da cultura indígena, especialmente do povo Chiquitano, por meio de uma expedição investigativa à aldeia “Portal do Encantado”, situada em uma reserva indígena a aproximadamente 170 km do município de Porto Esperidião – MT. Essa experiência permitiu aos alunos não apenas conhecer aspectos culturais, mas também refletir sobre a importância da valorização dos povos originários na formação da identidade brasileira.
OBJETIVO
O objetivo central deste projeto foi promover a reflexão crítica dos alunos acerca da influência dos costumes e práticas indígenas na cultura brasileira contemporânea. Buscou-se desenvolver essa compreensão de maneira dinâmica, participativa e prazerosa, por meio da interação direta com a cultura indígena.
Para isso, foram utilizadas diversas estratégias pedagógicas, como entrevistas, produções textuais, pesquisas, jogos, rodas de conversa, atividades artísticas, leitura de textos e mapas, exibição de vídeos e filmes, além da confecção de objetos típicos da cultura indígena, como brinquedos e adornos. Essas ações tiveram como foco principal estimular o respeito à diversidade cultural, o reconhecimento dos saberes tradicionais e o desenvolvimento do pensamento crítico.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O referido trabalho é um relato de experiência do projeto “Costumes e Práticas Indígenas na Cultura Brasileira” que aconteceu entre os dias 29 de abril a 22 novembro 2024, seguindo o alinhamento da metodologia de projetos do PUFV, nas quais o principal foco foi instigar os alunos a compreender sobre a influência dos costumes e práticas indígenas em nossa cultura, pois como diz Gilberto Freyre (2006, p.163):
“Da cunhã é que nos veio o melhor da cultura indígena. O asseio pessoal. A higiene do corpo. O milho. O caju. O mingau. O brasileiro de hoje, amante do banho e sempre de pente e espelhinho no bolso, o cabelo brilhante de loção ou de óleo de coco, reflete a influência de tão remotas avós”.
Para que os alunos tivessem contato com a cultura indígena, alguns profissionais da referida unidade escolar, se deslocaram até a aldeia Portal do Encantado para levá-los a vivenciar a cultura daquele povo, incentivando o respeito mútuo, no reconhecimento da diversidade e na valorização dos saberes tradicionais
O projeto surgiu durante uma aula sobre a Expansão Marítima, em que a professora instigou a curiosidade dos alunos sobre a chegada dos portugueses no Brasil e o contato que eles tiveram com povos indígenas que aqui habitavam. Ocorreu então, a pergunta exploratória: Vocês sabiam que nossa cultura tem influências de povos indígenas? Desse questionamento surgiram outros por parte dos alunos, como por exemplo: Quem já foi em uma aldeia indígena? Como são construídas as casas deles? O que eles comem? Como eles vivem? Diante dessas curiosidades os professores materializaram a ideia de levá-los até a aldeia “Portal do Encantado” para que eles pudessem conhecer a cultura indígena e interagir com as crianças daquela comunidade, reafirmando o que diz Zoratto e Hornes (2014, p.3):
A Aula de Campo é uma ferramenta didática que contribui na superação desse desafio, pois além de aproximar a teoria da realidade, vincula a leitura e a observação, situações e ações que, associadas à problematização e à contextualização encaminhadas pelo docente, ampliam a construção do conhecimento pelo aluno. Essas possibilidades permitem ao discente experimentar e desenvolver outras inteligências que nem sempre são contempladas e incentivadas na sala de aula.
Esse projeto foi desenvolvido pelos professores da Escola Centro Educacional Municipal “Vereador Edson Athier Almeida Tamandaré” por meio do programa social “A União Faz a Vida” da Fundação Sicredi, adotando práticas pedagógicas e uma metodologia própria, ativa e interessada na formação de crianças e adolescentes, acompanhando os movimentos das culturas escolares e das suas comunidades promovendo assim a aprendizagem por meio de conteúdos, com o objetivo de fazer valer o princípio da cooperação e cidadania, envolvendo os alunos e toda a comunidade de aprendizagem conforme verificamos em Zabala(2020),
Por um lado, a ampliação dos conteúdos de aprendizagem ligados ao saber fazer, ao saber ser e saber conviver; por outro, a necessidade de que as aprendizagens não se reduzam a memorização, mas que possam ser aplicados em qualquer circunstância da vida. (Zabala; Arnau, 2020,P.7)
No dia 22 de junho de 2024, aproximadamente 40 (quarenta) alunos do 4º ano da escola supracitada, saíram para uma expedição por volta das 05:30 horas da manhã de sábado, acompanhados por alguns profissionais desta unidade.
A chegada ao território indígena ocorreu por volta das 11:30 horas e fomos bem recepcionados pela comunidade local, com um almoço e bebidas típicas. No primeiro momento nos receberam em um barracão de eventos, no qual nos apresentamos e eles apresentaram algumas danças típicas. Em seguida, o cacique falou sobre as lutas pela demarcação de terras, demonstrando a insatisfação com o Marco Temporal. Os alunos tiveram o privilégio de questionar como era a cultura indígena, como por exemplo, se eles ainda andavam “pelados” e o Cacique relatou que essa prática acontecia há seis gerações, enfatizando sobre a organização hierárquica e o papel de cada integrante daquela comunidade, apresentando a escola daquele local que valoriza a cultura e preserva a língua materna (Linguará) dos povos indígenas Chiquitanos. Em seguida, visitamos o centro cultural para apreciar o artesanato local; participamos de uma dança cultural (Curussé), tocamos flauta, batemos tambor, brincamos de tiro ao alvo com arco e flecha e jogamos futebol.
A prática do projeto no âmbito escolar mobilizou toda comunidade, tendo como foco a aprendizagem dos alunos. Aqueles que foram à aldeia apresentaram suas experiências no auditório da escola. Também foram desenvolvidas diversas atividades como: produção textual, roda de conversa, criação de desenhos, leitura, vídeos, filme, pintura dirigida, origami, leitura de mapa, pesquisa, confecção de colares indígenas e petecas. Essas atividades foram realizadas de forma interdisciplinar, integrando os componentes curriculares de História, Geografia, Língua Portuguesa, Matemática, Arte, Educação Física, Língua Inglesa e Ciências. No que diz respeito à interdisciplinaridade, Fazenda (2007, p. 67) enfatiza que:
[...] o pensar interdisciplinar parte da premissa de que nenhuma forma de conhecimento é em si mesma exaustiva. Tenta, pois o diálogo com outras fontes do saber, deixando-se irrigar por elas. Assim, por exemplo, confere validade ao conhecimento do senso comum, pois é através do cotidiano que damos sentido às nossas vidas. Ampliado pelo diálogo com o conhecimento científico, o senso comum tende a uma dimensão, ainda que utópica, capaz de enriquecer nossa relação com o outro e com o mundo”.
Nesse sentido, a interdisciplinaridade contribuiu para que os nossos alunos pudessem compreender que, essa troca de saberes, por meio de diferentes componentes curriculares, foi enriquecedora, para terem uma visão mais ampla da realidade. Como sinaliza Freire(2009),
Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos pões pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos. (Freire, 2009, p.32)
A troca de conhecimentos e práticas entre esses povos permite a preservação das identidades culturais indígenas, ao mesmo tempo em que enriquece a sociedade como um todo com novas perspectivas sobre sustentabilidade, coletividade e relação com a natureza. Além disso, essa cooperação contribui para a superação de desigualdades históricas, promovendo um diálogo intercultural que fortalece a inclusão social e o desenvolvimento sustentável.
IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO INTERCULTURAL NA FORMAÇÃO DOS ALUNOS
A sociedade contemporânea caracteriza-se por sua complexidade, diversidade cultural e intensificação dos processos de globalização. Nesse cenário, a escola assume um papel fundamental na formação de indivíduos capazes de conviver, respeitar e dialogar com diferentes culturas, valores e identidades. A educação intercultural emerge, portanto, como uma abordagem pedagógica indispensável, pois promove não apenas o reconhecimento das diferenças, mas também a valorização da diversidade como elemento essencial para o desenvolvimento humano e social.
A educação intercultural vai além de uma simples convivência entre culturas distintas; ela propõe um diálogo constante, crítico e reflexivo entre saberes, práticas e visões de mundo. Dessa forma, contribui significativamente para a formação de alunos mais conscientes, críticos, empáticos e preparados para atuar em uma sociedade plural.
Contexto Histórico e Social da Educação Intercultural
A necessidade da educação intercultural surge a partir de transformações sociais, políticas e econômicas que intensificaram o contato entre diferentes culturas. Movimentos migratórios, avanços tecnológicos e a globalização ampliaram a diversidade presente nos espaços sociais, especialmente nas escolas.
Historicamente, a educação tradicional muitas vezes ignorou ou marginalizou culturas consideradas minoritárias, impondo uma visão homogênea e dominante. Esse modelo contribuiu para a exclusão social e o fortalecimento de preconceitos. Em contraposição, a educação intercultural surge como uma resposta a essas desigualdades, buscando promover equidade, inclusão e justiça social.
No Brasil, a diversidade cultural é um dos principais traços da sociedade, resultado da contribuição de povos indígenas, africanos, europeus e de outras origens. Nesse contexto, a educação intercultural torna-se ainda mais relevante, pois reconhece e valoriza essa pluralidade como parte fundamental da identidade nacional.
Conceito de Educação Intercultural
A educação intercultural pode ser definida como um processo educativo que promove o diálogo entre culturas, respeitando suas especificidades e incentivando a construção de conhecimentos a partir da diversidade. Diferentemente de abordagens assimilacionistas, que buscam a adaptação de grupos minoritários à cultura dominante, a educação intercultural valoriza a troca e o enriquecimento mútuo.
Ela envolve princípios como:
Respeito às diferenças culturais;
Promoção da igualdade e da equidade;
Valorização das identidades individuais e coletivas;
Combate ao preconceito e à discriminação;
Incentivo ao diálogo e à cooperação.
Essa abordagem não se limita a conteúdos específicos, mas permeia toda a prática pedagógica, influenciando metodologias, relações interpessoais e a organização curricular.
A Educação Intercultural no Ambiente Escolar
A escola é um espaço privilegiado para a implementação da educação intercultural, pois reúne indivíduos de diferentes origens e experiências. Nesse ambiente, é possível promover práticas que incentivem o respeito, a convivência e a aprendizagem coletiva.
A inserção da educação intercultural no cotidiano escolar pode ocorrer por meio de diversas estratégias, como:
Inclusão de conteúdos que representem diferentes culturas;
Realização de projetos interdisciplinares;
Promoção de eventos culturais;
Incentivo ao diálogo e à participação dos alunos;
Valorização das experiências e conhecimentos dos estudantes.
Além disso, é fundamental que a escola adote uma postura inclusiva, reconhecendo e respeitando as diferenças como parte do processo educativo.
Importância da Educação Intercultural na Formação dos Alunos
A educação intercultural desempenha um papel essencial na formação integral dos alunos, contribuindo para o desenvolvimento de diversas competências e habilidades.
Desenvolvimento do respeito à diversidade
Um dos principais benefícios da educação intercultural é a promoção do respeito às diferenças. Ao entrar em contato com diferentes culturas, os alunos aprendem a valorizar a diversidade e a compreender que não existe uma única forma de pensar ou viver.
Formação de cidadãos críticos
A educação intercultural estimula o pensamento crítico, pois incentiva os alunos a refletirem sobre questões sociais, culturais e políticas. Dessa forma, contribui para a formação de cidadãos mais conscientes e participativos.
Combate ao preconceito e à discriminação
Ao promover o diálogo e a compreensão entre culturas, a educação intercultural ajuda a desconstruir estereótipos e preconceitos, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Desenvolvimento de habilidades socioemocionais
A convivência com a diversidade favorece o desenvolvimento de habilidades como empatia, tolerância, respeito e cooperação, fundamentais para a vida em sociedade.
Ampliação do repertório cultural
O contato com diferentes culturas enriquece o conhecimento dos alunos, tornando o aprendizado mais significativo e contextualizado.
O Papel do Professor na Educação Intercultural
O professor é um agente fundamental na implementação da educação intercultural. Cabe a ele criar um ambiente de aprendizagem acolhedor, inclusivo e respeitoso, no qual todos os alunos se sintam valorizados.
Entre as principais responsabilidades do educador, destacam-se:
Promover o diálogo entre os alunos;
Valorizar a diversidade cultural presente na sala de aula;
Utilizar metodologias inclusivas;
Combater atitudes preconceituosas;
Incentivar a participação de todos os estudantes.
Para isso, é essencial que o professor esteja em constante formação, buscando compreender as diferentes realidades culturais e desenvolver práticas pedagógicas adequadas.
Desafios na Implementação da Educação Intercultural
Apesar de sua importância, a educação intercultural ainda enfrenta diversos desafios, como:
Falta de formação adequada dos professores;
Resistência a mudanças nas práticas pedagógicas;
Preconceitos e estereótipos presentes na sociedade;
Escassez de recursos e materiais didáticos;
Dificuldade em integrar a interculturalidade ao currículo escolar.
Superar esses desafios exige esforço conjunto de educadores, gestores, famílias e políticas públicas.
Estratégias para Fortalecer a Educação Intercultural
Para promover uma educação intercultural efetiva, algumas estratégias podem ser adotadas:
Formação continuada de professores;
Inclusão da temática nos currículos escolares;
Desenvolvimento de projetos culturais;
Parcerias com comunidades locais;
Uso de metodologias ativas e participativas.
Essas ações contribuem para a construção de uma escola mais inclusiva e democrática.
A Educação Intercultural e a Construção da Cidadania
A educação intercultural está diretamente relacionada à formação cidadã, pois promove valores como respeito, justiça, igualdade e solidariedade. Ao aprender a conviver com a diversidade, os alunos tornam-se mais preparados para atuar em uma sociedade plural e democrática.
Além disso, essa abordagem contribui para a construção de uma cultura de paz, baseada no diálogo e na compreensão mútua.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluímos que, a expedição à aldeia indígena alcançou os objetivos esperados, pois fez com que os alunos se sentissem motivados e envolvidos, onde puderam desenvolver novas habilidades e competências, tornando-os protagonistas no processo de ensino-aprendizagem e trazendo relatos significativos da realidade vivenciada para as famílias e comunidade escolar.
Ideias como protagonismo das crianças e adolescentes e aprendizagens a partir de contextos e conexões entre conhecimentos e experiências sejam princípios que hoje se mostram imprescindíveis para promover uma escola viva.
Todo esse trabalho nos levou a receber o convite para apresentar as experiências no III Seminário Municipal de Boas Práticas em Educação com o tema: A escola que encanta e transforma vidas”, o qual envolveu todos os profissionais da educação, alguns alunos da rede e parte da sociedade civil de Mirassol d’Oeste – MT.
REFERÊNCIAS
FAZENDA, Ivani. A Interdisciplinaridade e a Prática Pedagógica. In: Revista Diálogos Interdisciplinares - GEPFIP, Aquidauana, v. 1, n. 4, p. 62-76, dez. 2017.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. 39 edição. São Paulo: Paz e Terra, 2009.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal / Gilberto Freyre; apresentação de Fernando Henrique Cardoso. 48ª Ed. rev. São Paulo: Global, 2003. (Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil; 1).
ZABALLA, A.; ARNAU, L. Como aprender e ensinar competências. Porto Alegre: Penso, 2007.
ZORATTO, Alfredo; HORNES, Simone. Aula de Campo: Teoria e Prática. São Paulo: Editora Moderna, 2014.
[1] Mestrando em Língua Portuguesa pelo Programa Profletras – UNEMAT, Cáceres.
[2] Graduada em licenciatura em Pedagogia - UNEMAT, Cáceres- MT.
[3] Professora pedagoga na rede municipal de ensino de Mirassol d’Oeste – MT.
[4] Professora Pedagoga na rede municipal de ensino de Mirassol d’Oeste – MT.
[5] Professora Pedagoga na rede municipal de ensino de Mirassol d’Oeste – MT.

